quinta-feira, 11 de agosto de 2011

DEPRESSÃO, LUTO E MELANCOLIA – 2

Eu tive a sorte de cair e me formar num meio profissional que ainda prioriza coisas como história pessoal, subjetividade e singularidade. Ainda me lembro, como se fosse hoje, do dia em que contei para o Dr. Walcy que meu filho havia chegado. Ele sorriu e apenas me disse:
- Parabéns! Agora... observe.
Minha guru-master (só conto pra quem perguntar) me ensinou a fazer do ouvido a agulha da bússola. É pra lá! É pra lá!

O incrível é que vim de outro meio cuja prioridade deveria ser o de saber ouvir. Nunca, mas nunca mesmo, me foi dito que eu iria ouvir um trem chamado depressão e que ele poderia descarrilar justamente em cima do meu ouvido. Quando descarrilou, eu não soube como lidar.


A depressão está em todos os lugares. Os clínicos gerais a diagnosticam, as celebridades revelam que sofrem dela, as crianças recebem receitas medicamentosas para tratá-la, os programas do começo da manhã e do meio da tarde a debatem na mídia, os personagens de novela lutam contra ela. No entanto, há 50 anos, concluem os estudos, quase não havia depressão. As pessoas eram consideradas neuróticas ou ansiosas, mas dificilmente deprimidas.
Mudou o quê? Mais precisamente, mudou quem?

A depressão é o nome de uma doença singular. Ela possui características específicas e aparece em todas as sociedades. De Brazópolis, Minas Gerais, a Brazzaville, no Congo, existe depressão. Sei que existe em Brazópolis (ara!) porque sou de lá. Sei que existe no Congo porque, há pouco tempo, estive com uma missionária francesa, e quando ela soube o que eu era e fazia, me contou dos deprimidos do Congo. Voilá! Existem deprimidos no Congo.

Mas o que é isso: depressão?

Depressão envolve um conjunto de sintomas como tristeza, desejo de sumir, pensamentos suicidas, perda do desejo e restrição da fala, perda do cuidado consigo mesmo (por exemplo, banho, alimentação...), exposição a perigos e a comportamentos de risco, auto-recriminações, pensamentos obsessivos de morte ou de ficar louco, pavor e pânico diante da solidão, manifestações psicossomáticas, sono conturbado (excesso durante o dia, insônia à noite), aumento ou diminuição do apetite, reduzida capacidade de concentração, incapacidade total de encontrar satisfação em qualquer coisa, tendência ao isolamento, vazio espiritual num sentimento de abismo profundo, claro, choro. Bastante.

Tem mais. O sujeito esconde a depressão e se esconde nela. Pode não ter problema algum em contar aos amigos que fraturou a tíbia, mas não conta pra ninguém que está deprimido. Estando deprimido, pode não ter problema nenhum em contar que se sente exausto, mas não revela, nem sob tortura, a evasão da libido.

E isso muda de cultura pra cultura.

A falta de energia pode ser interpretada em algumas sociedades como tristeza ou culpa, mas não em todas. Da mesma forma, a resposta de um grupo social pode variar diante de um sujeito deprimido, desde a preocupação e cuidado até a desconsideração e desprezo.

Dessa forma, o que se chama, hoje, “depressão” (não se esqueça das aspas) é a interpretação específica da medicina ocidental sobre um determinado conjunto de mal-estares biológicos, desde que a química cerebral seja considerada o fator básico. Pimba! O povo gosta de um tubo de ensaio.

Há também a perspectiva social da depressão. O tempo se encurtou, o consumo se expandiu, os vínculos desapareceram, as exigências do mercado re-re-dobraram sua incalculável capacidade de sufocar o desejo no sujeito, a gente perdeu as seguranças e os consolos de antes, as vigas não sustentam mais o peso da casa e a casa cai.

Alguns psicanalistas consideram a depressão como uma forma de protesto. Por ser considerado unidade de energia na sociedade industrializada (a bateria da Matrix) o humano resiste, consciente ou não. Daí que, quanto mais a sociedade moderna estimula a atingir autonomia e independência na busca por satisfação, mas a resistência assume valores completamente opostos. Ao colocar o sofrimento no centro da plenitude, a depressão encontrou sua forma de dizer NÃO ao que nos mandam ser. Porque alguém precisa dizer NÃO à insanidade corporativista do momento. Não acham?

Temos assunto!



2 comentários:

  1. Ôps e se temos assunto!
    Esse último parágrafo dá muito pano pra manga, não havia pensado nisso... muito interessante!
    Porque com essa "coisa" de individualismo cada vez olhamos menos para o outro e cada vez nos isolamos mais, é o sujeito que "se acha" e acredita na total não-dependência
    Como se fosse possível ser "Independente Futebol Clube! rs
    Todos somos dependentes de todos o tempo todo...
    É chato? É frustrante?
    É! Ser super-herói-super-resolvido é só na cadeira do cinema e olha lá rsrs
    Mas que libertador não ser "dono do mundo"
    que trabalhão daria, né Renato? rsrs

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  2. Acho que autonomia e independencia são condições para a liberdade....que sempre foi desejada.

    Continuamos buscando novos relacionamentos; apenas estamos usando agora novos meios...
    Redes sociais sempre existiram.

    Os tempos modernos trouxeram muitos beneficios....mesmo se reduziram alguns problemas e se criaram outros.
    Ou sou um otimista ingenuo?

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