Todo mundo, algum dia, já chamou alguém de “recalcado”. “Sujeito recalcado” – a gente xinga, sem a menor noção do que está falando. Esse termo ficou pop e quando um termo fica pop a fama sobe à cabeça, e ele sai por aí fazendo bobagem. Recalque, na verdade, é um mecanismo de defesa.
O que é recalcar? Recalcar significa excluir um impulso, uma idéia ou um afeto da consciência. (Ta. Entendeu nada, né.) Primeiro, o que significa afeto e idéia? (Já vi que isso vai longe).
Idéia é toda representação de qualquer coisa do mundo, que se encontre dentro de você.
Olhe uma cadeira à sua frente. Aquela cadeira não está dentro de você. Dentro de você está a idéia daquela cadeira ou, melhor, a idéia do que seja uma cadeira. Quando você ouve “cadeira”, muita cadeira pode passar por aí dentro: cadeira elétrica, cadeira da mesa, de balanço, de rodas, de dentista, do barbeiro, do papai... Sem falar do trono do rei, do banheiro... Pode aumentar a lista. Tudo isso é cadeira. Quanta cadeira! Esse montão de cadeiras está aí, nalgum depósito dentro de você. Já pensou se ocupasse espaço!
Afeto é aquilo que afeta. Afeto é a quantidade de investimento que você coloca em cada idéia. Imagine a cadeira do papai, sobretudo, depois que o papai se foi. Ela vai estar sumamente investida de afeto. “Sai daí! É a cadeira do papai!” A cadeira do dentista também está sumamente investida de afeto. Ugh! Credo!
Entendeu esse “papo-cabeça” de idéia e afeto? Isso é muito importante para definir o recalque. Lembra também que o mecanismo de defesa manipula só a percepção da realidade, né? Então vamos lá.
O recalque é manipulação da percepção de um episódio interno. Vamos dizer de outra forma. Recalcar é escolher (aí dentro de você) entre os diversos caminhos, aquele que pode ser pensado e sentido, sem que isso seja considerado uma afronta à idéia que você tem de você mesmo e à idéia que você acha que os outros têm de você.
Lembra da esposa que ganhou no aniversário um ferro de passar roupa? Ela achou o presente uma belezinha! De certa forma, ela recalcou os sentimentos a respeito do episódio e encontrou um caminho para dar conta da raiva e não precisar usar o ferro fora da tábua de passar roupa. Haveria outro caminho? Haveria. Mas aquele, naquele momento, para aquela senhora, foi a melhor opção. Para isso, algo foi recalcado. Uma idéia foi recalcada. A de acertar a fuça do marido.
Mas a gente só falou do recalque da idéia. E o afeto, pra onde foi?
Muita coisa, né!
domingo, 18 de setembro de 2011
DIVÃ 14
Você chegou ao mundo com uma caixa de ferramentas pequena e muito vazia. Na sua estréia, havia apenas uma ferramenta pronta: a boca. Foi o fato de você sugar tudo o que tocasse nela que lhe garantiu a sobrevivência. Não fosse isso...
Durante a vida, não só essa caixa foi sendo aumentada como também outras ferramentas foram adicionadas. Desde a chupeta, você aprendeu a lidar com brinquedos e com coisas, a andar, a falar, entrou na escola, foi pulando de estágio em estágio e, enfim, conseguiu que a caixa de ferramenta ficasse maior, com muitas outras ferramentas adquiridas ao longo da vida. Você conseguiu que a vida fosse boa mestra. Ou não. Depende. O fato é que você não sucumbiu. Está aqui. E promete.
Mas não foi fácil. O mundo não é um quarto de bebê. A vida é exigente e a gente tem de aprender a lidar com todas as exigências do mundo interno e do mundo externo. E pra isso, a gente manipula percepções, faz vista grossa, finge que não escutou, deixa pra lá... Essa percepção manipulada pode ser tanto de um episódio do seu mundo interno (pensamentos, sentimentos, impulsos, afetos) ou de episódios do mundo externo (as exigências do outro, do mundo).
O Evangelho diz que “Ninguém pode servir a dois senhores”. Mas é justamente isso que os mecanismos de defesa tentam. Eles tentam (pelo menos, tentam) servir a todos os senhores, os que estão dentro e os andam por aí, fora de você. Todos são ávidos de satisfação e de manipulação. E você está aí, no meio disso tudo, driblando a força dos impulsos internos e a dura realidade externa. Isso é uma façanha de herói. Ser gente não é pra qualquer um, não.
Os mecanismos de defesa fazem parte da sua caixa de ferramentas. Não basta ter uma caixa cheia. É preciso saber como usar cada ferramenta. Para abrir portas? A chave do chaveiro. Para trocar pneus? A chave de roda. Tenta fazer o serviço de uma com outra, só pra ver! Sem falar na chave de cadeia, chave de braço e até na chave na mão de São Pedro, que é tudo, menos chave.
Você entendeu do que estamos conversando? Não é de significado, é de metáfora. Coisa de humanos. Humanos, ta! Porque esse produto “metáfora” anda escaaasso no mercado, ultimamente.
Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível.
Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível.
Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudo-nada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível.
Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora.
Essa é do menino Gil. Aquele que era músico, depois virou ministro... Deixa pra lá.
Durante a vida, não só essa caixa foi sendo aumentada como também outras ferramentas foram adicionadas. Desde a chupeta, você aprendeu a lidar com brinquedos e com coisas, a andar, a falar, entrou na escola, foi pulando de estágio em estágio e, enfim, conseguiu que a caixa de ferramenta ficasse maior, com muitas outras ferramentas adquiridas ao longo da vida. Você conseguiu que a vida fosse boa mestra. Ou não. Depende. O fato é que você não sucumbiu. Está aqui. E promete.
Mas não foi fácil. O mundo não é um quarto de bebê. A vida é exigente e a gente tem de aprender a lidar com todas as exigências do mundo interno e do mundo externo. E pra isso, a gente manipula percepções, faz vista grossa, finge que não escutou, deixa pra lá... Essa percepção manipulada pode ser tanto de um episódio do seu mundo interno (pensamentos, sentimentos, impulsos, afetos) ou de episódios do mundo externo (as exigências do outro, do mundo).
O Evangelho diz que “Ninguém pode servir a dois senhores”. Mas é justamente isso que os mecanismos de defesa tentam. Eles tentam (pelo menos, tentam) servir a todos os senhores, os que estão dentro e os andam por aí, fora de você. Todos são ávidos de satisfação e de manipulação. E você está aí, no meio disso tudo, driblando a força dos impulsos internos e a dura realidade externa. Isso é uma façanha de herói. Ser gente não é pra qualquer um, não.
Os mecanismos de defesa fazem parte da sua caixa de ferramentas. Não basta ter uma caixa cheia. É preciso saber como usar cada ferramenta. Para abrir portas? A chave do chaveiro. Para trocar pneus? A chave de roda. Tenta fazer o serviço de uma com outra, só pra ver! Sem falar na chave de cadeia, chave de braço e até na chave na mão de São Pedro, que é tudo, menos chave.
Você entendeu do que estamos conversando? Não é de significado, é de metáfora. Coisa de humanos. Humanos, ta! Porque esse produto “metáfora” anda escaaasso no mercado, ultimamente.
Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível.
Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível.
Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudo-nada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível.
Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora.
Essa é do menino Gil. Aquele que era músico, depois virou ministro... Deixa pra lá.
sábado, 17 de setembro de 2011
DIVÃ 13
A diferença entre a expectativa e a esperança está no prazo: a expetativa tem prazo, a esperança, não.
Há uma grande esperança de que a fome na África seja resolvida nos próximos 50 anos. Existe uma esperança (num milagre!) de que aconteçam ações governamentais no sentido de fazer com nesses próximos 50 anos não haja mais crianças morrendo de inanição. 50 anos é muito ou pouco tempo? Depende. Se for expectativa, é uma eternidade. Se for esperança, não. Na esperança, o tempo é outro.
Olhe pra você. Existe alguma expectativa séria de que alguém com quem, de alguma forma, você pretenda viver pelo resto de seus dias, ou nem tanto, corrija de maneira “ortopédica” algum desvio incongruente às idéias que você tem a respeito dele? Vamos melhorar essa frase. Você espera que o outro deixe de beber, pare de fumar, abandone algum vício difamatório, mude os contornos do jeito de ser? Caramba! Se for assim, você tem um problemão!
Porque, não importa quem, ele e você enfrentam resistências acobertadas por mecanismos de defesa que agem em surdina. Quando você tenta alcançá-las, suas defesas recrudescem. Quando você acha que enfrentou, a situação vazou, pelo vão dos dedos.
Os mecanismos de defesa são ferramentas do Eu, para se livrar da angústia. Mas, ao mesmo tempo, são parasitas do Eu. Cada um deles lida com um tipo de realidade: a realidade interna e a realidade externa. A manipulação da percepção, que você já ouviu falar, incide nos dois lados desse balão do Eu: no ar quente interno e no ar frio externo. É o equilíbrio entre o ar quente de dentro e o ar frio de fora que faz o balão subir. Muito ar quente, o balão sobe. Muito ar frio, o balão desce. São duas realidades operando na interface da lona do balão. Que nesse caso, já disse, é o pobre coitado do Eu, a quem são concedidas honras de piloto, mas que, na verdade, não passa de um subalterno tentando agradar a gregos e baianos.
É importantíssimo conhecer esses mecanismos que conduzem o dirigível à revelia do piloto. Tudo o que não se pode nessa vida é dirigir na neblina. Se for um balão, vá lá. Mas se você dirigir sua vida como se fosse um carro, de repente, entrar numa neblina densa, é uma situação horrorosa. Você perde de vista a estrada, não sabe pra onde ir, não sabe onde parar, não pode ir em frente, não pode parar. Os 270 carros do último desastre-monstro dão ideia dessa absoluta impotência. A neblina é um branco escuro. A vida também.
Há uma grande esperança de que a fome na África seja resolvida nos próximos 50 anos. Existe uma esperança (num milagre!) de que aconteçam ações governamentais no sentido de fazer com nesses próximos 50 anos não haja mais crianças morrendo de inanição. 50 anos é muito ou pouco tempo? Depende. Se for expectativa, é uma eternidade. Se for esperança, não. Na esperança, o tempo é outro.
Olhe pra você. Existe alguma expectativa séria de que alguém com quem, de alguma forma, você pretenda viver pelo resto de seus dias, ou nem tanto, corrija de maneira “ortopédica” algum desvio incongruente às idéias que você tem a respeito dele? Vamos melhorar essa frase. Você espera que o outro deixe de beber, pare de fumar, abandone algum vício difamatório, mude os contornos do jeito de ser? Caramba! Se for assim, você tem um problemão!
Porque, não importa quem, ele e você enfrentam resistências acobertadas por mecanismos de defesa que agem em surdina. Quando você tenta alcançá-las, suas defesas recrudescem. Quando você acha que enfrentou, a situação vazou, pelo vão dos dedos.
Os mecanismos de defesa são ferramentas do Eu, para se livrar da angústia. Mas, ao mesmo tempo, são parasitas do Eu. Cada um deles lida com um tipo de realidade: a realidade interna e a realidade externa. A manipulação da percepção, que você já ouviu falar, incide nos dois lados desse balão do Eu: no ar quente interno e no ar frio externo. É o equilíbrio entre o ar quente de dentro e o ar frio de fora que faz o balão subir. Muito ar quente, o balão sobe. Muito ar frio, o balão desce. São duas realidades operando na interface da lona do balão. Que nesse caso, já disse, é o pobre coitado do Eu, a quem são concedidas honras de piloto, mas que, na verdade, não passa de um subalterno tentando agradar a gregos e baianos.
É importantíssimo conhecer esses mecanismos que conduzem o dirigível à revelia do piloto. Tudo o que não se pode nessa vida é dirigir na neblina. Se for um balão, vá lá. Mas se você dirigir sua vida como se fosse um carro, de repente, entrar numa neblina densa, é uma situação horrorosa. Você perde de vista a estrada, não sabe pra onde ir, não sabe onde parar, não pode ir em frente, não pode parar. Os 270 carros do último desastre-monstro dão ideia dessa absoluta impotência. A neblina é um branco escuro. A vida também.
SE EXISTE VIDA EM OUTRO PLANETA?
Se existe vida em outro planeta? Ah, decerto! Não é possível que o Divino tenha resolvido habitar apenas este lugar perdido na galáxia.
É claro que não é fácil imaginar como isso seria. Qualquer pensamento que a gente tenha, e que não seja sobre a gente, só será possível se o resultado for a gente mesmo. Dá pra pensar em Deus? Dá. Mas desde que você coloque rosto, pé, mão, roupa e até barba nele. Deus é Deus. Mas a cara dele é a sua. Se os carneiros tivessem deus, Deus teria lã. Se os cavalos tivessem deus, teria rabo. Se os papagaios tivessem deus, ele seria uma beleza de colorido!
Só será possível imaginar a vida de outro lugar, se ela tiver a cara daqui. Até os monstros de desenho animado japonês tem patas, braços, cabeça, olhos... tudo mais ou menos como existe por aqui. Ta certo que eles misturam morcego e gafanhoto com cachorro, mas é tudo feito por aqui mesmo, à nossa imagem e semelhança.
Fico imaginando como seria a vida em Mercúrio, Venus, Marte...
Mercúrio é a 25 de março do Céu. Quando Deus precisa de um corte de tecido pra Nossa Senhora, pergunta aonde ele vai? Quando Deus inventa de fazer um puxadinho no Céu e precisa de material, pergunta aonde ele vai? Quando ele precisa de peça de reposição pra consertar o universo, pergunta aonde vai? E muamba, onde...? Ouvi dizer que ele preferia falar árabe. Proximidade de língua, entende? Ta difícil pra ele aprender coreano. Mas ele aprende. É esforçado. Sem falar na facilidade de viajar e fazer cursos de aperfeiçoamento de língua no país de origem. Ele aprendeu até chinês! Coreano, ta ali, ó... O problema em Mercúrio são os “trombadinhas”. Tirando isso, é até um lugar legal. Meio quente, mas legal.
Vênus é um salão de beleza cheio de peruas. Muito charme, elegância e secadores barulhentos. Vênus é um planeta perfumado. É lá que as anjas vão pra arrumar os cachos louros. O problema é que só há tintura loura, porque ainda não se admite anja morena. O requerimento já foi feito ao Supremo, mas ainda não foi deferido. Vênus é pura fofoca.
Marte, ugh! Marte é o setor militar do Céu. É de lá que partem as ordens pra organizar o caos. Deus detesta caos. Ele tem TOC. É por isso que ele controla Marte. Em Marte, tem sempre gente querendo dar um golpe e assumir o controle do Alto Comando. Marte é um planeta perigoso: um povo nervoso e de cara feia. Deus passa por lá quase todo dia. Mas nunca dorme lá.
Júpiter é a universidade do Céu: cheio de doutores, mestres, docentes e alunos. Deus é o reitor-magnífico da “Universal University”. Em Júpiter, vive aquele povo empoado, mal vestido e com barba por fazer, que freqüenta os saguões das Universidades, sempre com ares de donos da verdade absoluta, até quando proclamam que a verdade absoluta não existe. Ela, não. Mas eles, sim.
Saturno é a pista de dança do Céu. Todos os sucessos de todos os tempos. Já pensou! De Mozart a Zezé de Camargo e Luciano, passando por tudo quanto já foi rei, até pelo rei-não-sei-de-quê, esse que ta aí. Saturno é muito divertido, muito alegre, muito gay. Aqueles anéis... Haja dedo!
Urano é a igreja do Céu. Pensa que não? Uai! Essas coisas têm pra todo canto. Terra pra ser boa tem de dar de tudo. Tem papa em Urano? Tem, sim senhor. E tem bispo? Tem, sim senhor. E tem padre? Tem sim. E tem pastor? Não. Urano é católico: um planeta muito esquisito.
Netuno é uma mistura de Piscinão de Ramos com Martim de Sá: dá de tudo. Prédios com cara de caixa de papelão, criançada rolando na areia, mulherada de biquíni verde-menta fosforescente, muita farofa, e os marmanjos mamando cerveja e criando barriga. Também tem gente bonita, mas é rara. Netuno é onde a alegria mora. Netuno é pop.
Plutão é casinha de fundo do quintal do Céu. Muita tranqueira, máquina de costura velha, geladeira sem motor, peça de carro, cadeira quebrada, mesa sem perna, sapato usado, gaiola vazia amassada, e muita, muita poeira cósmica. Plutão merecia era uma boa faxina.
E a Terra? A Terra é a feira de domingo do Céu. Alguns lugares da Terra é o começo da feira. Outros, o meio. Outros, a Xepa. Tem peixe, alface, couve, tomate, laranja, pudim de pão, carne, ovo, biscoito, fruta, frango, doce, legume, melão, melancia, o homem que toca vilão, a criança que toca pandeiro, a velha pedinte, o cachorro chutado, e, é claro, pastel. Pastel! A Terra é a feira de domingo do Céu.
Deus compra muamba em Mercúrio, delibera em Marte, visita anjas em Vênus, exerce livre docência em Júpiter, dá umas espiadas em Saturno, foge da missa de Urano, freqüenta a praia de Netuno disfarçado de golfinho, e não passa nem perto de Plutão.
Mas o que ele gosta mesmo é da feira da Terra. Deus não troca um pastel da Terra por nada do universo. Com a vantagem dele poder comer. Gente, Deus não tem triglicérides!
Se você vir um sujeito passeando na feira de domingo, de carrinho vazio, como se estivesse num resort, chegue perto e sinta o perfume que emana dele. É. A gente conhece Deus pelo perfume. Deus tem cheiro de chuva. Melhor. Tem cheiro de manhã depois da chuva. Melhor. Tem cheiro de manhã depois da chuva no meio de um laranjal em flor.
Se existe vida em outro planeta? Ah, decerto! Só não existe floração de laranjeira. Isso, só aqui.
É claro que não é fácil imaginar como isso seria. Qualquer pensamento que a gente tenha, e que não seja sobre a gente, só será possível se o resultado for a gente mesmo. Dá pra pensar em Deus? Dá. Mas desde que você coloque rosto, pé, mão, roupa e até barba nele. Deus é Deus. Mas a cara dele é a sua. Se os carneiros tivessem deus, Deus teria lã. Se os cavalos tivessem deus, teria rabo. Se os papagaios tivessem deus, ele seria uma beleza de colorido!
Só será possível imaginar a vida de outro lugar, se ela tiver a cara daqui. Até os monstros de desenho animado japonês tem patas, braços, cabeça, olhos... tudo mais ou menos como existe por aqui. Ta certo que eles misturam morcego e gafanhoto com cachorro, mas é tudo feito por aqui mesmo, à nossa imagem e semelhança.
Fico imaginando como seria a vida em Mercúrio, Venus, Marte...
Mercúrio é a 25 de março do Céu. Quando Deus precisa de um corte de tecido pra Nossa Senhora, pergunta aonde ele vai? Quando Deus inventa de fazer um puxadinho no Céu e precisa de material, pergunta aonde ele vai? Quando ele precisa de peça de reposição pra consertar o universo, pergunta aonde vai? E muamba, onde...? Ouvi dizer que ele preferia falar árabe. Proximidade de língua, entende? Ta difícil pra ele aprender coreano. Mas ele aprende. É esforçado. Sem falar na facilidade de viajar e fazer cursos de aperfeiçoamento de língua no país de origem. Ele aprendeu até chinês! Coreano, ta ali, ó... O problema em Mercúrio são os “trombadinhas”. Tirando isso, é até um lugar legal. Meio quente, mas legal.
Vênus é um salão de beleza cheio de peruas. Muito charme, elegância e secadores barulhentos. Vênus é um planeta perfumado. É lá que as anjas vão pra arrumar os cachos louros. O problema é que só há tintura loura, porque ainda não se admite anja morena. O requerimento já foi feito ao Supremo, mas ainda não foi deferido. Vênus é pura fofoca.
Marte, ugh! Marte é o setor militar do Céu. É de lá que partem as ordens pra organizar o caos. Deus detesta caos. Ele tem TOC. É por isso que ele controla Marte. Em Marte, tem sempre gente querendo dar um golpe e assumir o controle do Alto Comando. Marte é um planeta perigoso: um povo nervoso e de cara feia. Deus passa por lá quase todo dia. Mas nunca dorme lá.
Júpiter é a universidade do Céu: cheio de doutores, mestres, docentes e alunos. Deus é o reitor-magnífico da “Universal University”. Em Júpiter, vive aquele povo empoado, mal vestido e com barba por fazer, que freqüenta os saguões das Universidades, sempre com ares de donos da verdade absoluta, até quando proclamam que a verdade absoluta não existe. Ela, não. Mas eles, sim.
Saturno é a pista de dança do Céu. Todos os sucessos de todos os tempos. Já pensou! De Mozart a Zezé de Camargo e Luciano, passando por tudo quanto já foi rei, até pelo rei-não-sei-de-quê, esse que ta aí. Saturno é muito divertido, muito alegre, muito gay. Aqueles anéis... Haja dedo!
Urano é a igreja do Céu. Pensa que não? Uai! Essas coisas têm pra todo canto. Terra pra ser boa tem de dar de tudo. Tem papa em Urano? Tem, sim senhor. E tem bispo? Tem, sim senhor. E tem padre? Tem sim. E tem pastor? Não. Urano é católico: um planeta muito esquisito.
Netuno é uma mistura de Piscinão de Ramos com Martim de Sá: dá de tudo. Prédios com cara de caixa de papelão, criançada rolando na areia, mulherada de biquíni verde-menta fosforescente, muita farofa, e os marmanjos mamando cerveja e criando barriga. Também tem gente bonita, mas é rara. Netuno é onde a alegria mora. Netuno é pop.
Plutão é casinha de fundo do quintal do Céu. Muita tranqueira, máquina de costura velha, geladeira sem motor, peça de carro, cadeira quebrada, mesa sem perna, sapato usado, gaiola vazia amassada, e muita, muita poeira cósmica. Plutão merecia era uma boa faxina.
E a Terra? A Terra é a feira de domingo do Céu. Alguns lugares da Terra é o começo da feira. Outros, o meio. Outros, a Xepa. Tem peixe, alface, couve, tomate, laranja, pudim de pão, carne, ovo, biscoito, fruta, frango, doce, legume, melão, melancia, o homem que toca vilão, a criança que toca pandeiro, a velha pedinte, o cachorro chutado, e, é claro, pastel. Pastel! A Terra é a feira de domingo do Céu.
Deus compra muamba em Mercúrio, delibera em Marte, visita anjas em Vênus, exerce livre docência em Júpiter, dá umas espiadas em Saturno, foge da missa de Urano, freqüenta a praia de Netuno disfarçado de golfinho, e não passa nem perto de Plutão.
Mas o que ele gosta mesmo é da feira da Terra. Deus não troca um pastel da Terra por nada do universo. Com a vantagem dele poder comer. Gente, Deus não tem triglicérides!
Se você vir um sujeito passeando na feira de domingo, de carrinho vazio, como se estivesse num resort, chegue perto e sinta o perfume que emana dele. É. A gente conhece Deus pelo perfume. Deus tem cheiro de chuva. Melhor. Tem cheiro de manhã depois da chuva. Melhor. Tem cheiro de manhã depois da chuva no meio de um laranjal em flor.
Se existe vida em outro planeta? Ah, decerto! Só não existe floração de laranjeira. Isso, só aqui.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
divã 12
Quem vai à missa, reza: “Eu pecador me confesso a Deus, porque pequei muitas vezes, por pensamentos e palavras, atos e omissões...”
Caramba, pegaram tudo! Não sobrou nada! Que é isso minha gente! Nem pensamento pode! Nem pecar em pensamento, pode!
Pensar pode! Mas e quando pensar não pode? E quando nem pensar pode? Aí fica complicado. “Diiivéras” complicado, como se diz na minha terra.
Pra evitar pensar no que eu não quero ou não posso ou não devo (nem) pensar, existem alguns mecanismos de defesa. Trem bão, sô! E funciona? Funcionar... funciona. Mas, falha. É que nem cachorro do vizinho: “Amigo, amigo”, e ele não pega. Um dia...
E o que é isso: mecanismo de defesa?
1) MECANISMO DE DEFESA É UMA MANIPULAÇÃO DA PERCEPÇÃO, PARA PROTEGER VOCÊ DA ANSIEDADE DIANTE DO PERIGO.
2) MAS NÃO SÓ DA ANSIEDADE. A FUNÇÃO DO MECANISMO DE DEFESA É MANTER VOCÊ IMPERMEÁVEL À SENSAÇÃO DE DESAMPARO DIANTE DO PERIGO.
Ufa! Já viu que essa conversa é longa, né.
Pra começar, observe os termos: manipulação da percepção. Ninguém manipula a realidade. Não há como manipular a realidade, até porque ninguém sabe direito o que ela é. O que a gente manipula é a percepção da realidade, só a percepção. Mas, Ô... manipula mesmo e o tempo todo!
Imagine que a esposa, no aniversário dela, esperando um anel da Vivara, ganhe de presente do marido um ferro de passar roupa, novinho! (Silêncio sobre a Terra.) Opção 1: ela arrebenta a cabeça dele com o ferro. Opção 2: ela diz pra si mesma: Que bom! O outro aparelho já estava velho, mesmo! E vai, feliz que só, passar a roupa que lhe cabe nessa vida.
Ela manipulou algo dentro de si. Mas não foi a realidade: a do ferro que veio no lugar no anel. A realidade continua lá, bunitinha, no mesmo lugar. O que ela manipulou foi a percepção da realidade, foi o jeito de enxergar e de carregar um peso que desanca qualquer um.
O real é sempre o mesmo. Mas, e se você não aguentar com ele? E se você não conseguir nem olhar pra ele? E se você não puder nem pensar nele?
O paciente de câncer, depois da cirurgia, precisa realmente acreditar “que jogou aquilo fora, que acabou o problema, que ele está novo em folha, e sai pra lá urucubaca!” Se o sujeito sabe ou não que não é bem assim, não faz diferença. Naquele momento, faz toda diferença, pensar daquela forma, raciocinar aquele jeito, resolver assim. E se não resolver? Ah, isso a gente vê depois!
Tem coisa que é difícil de pensar. Pensar, dói. “Por pensamentos e palavras, atos e omissões.” Mas pensar, pode! Pelo menos, isso, pode! A questão é se você permite. Por falar nisso, você permite? Você deixa você pensar naquilo que você pode pensar? Ou, quem sabe, ainda sejamos crianças, que acreditam no pensamento mágico, do tipo, quando a gente tinha de bater na boca se falasse o nome “da doença feia”? Aquilo era mágico; se falasse, pegava. Nas horas de angústia, quando regredimos e infantilizamos, o pensamento mágico pode nos escorar e nos manter em pé. Pode. Mas é um equilíbrio frágil, frágil demais.
A questão é o que fazer com o pensamento que não para de pensar. Ô bichinho! Parece cupim!
Caramba, pegaram tudo! Não sobrou nada! Que é isso minha gente! Nem pensamento pode! Nem pecar em pensamento, pode!
Pensar pode! Mas e quando pensar não pode? E quando nem pensar pode? Aí fica complicado. “Diiivéras” complicado, como se diz na minha terra.
Pra evitar pensar no que eu não quero ou não posso ou não devo (nem) pensar, existem alguns mecanismos de defesa. Trem bão, sô! E funciona? Funcionar... funciona. Mas, falha. É que nem cachorro do vizinho: “Amigo, amigo”, e ele não pega. Um dia...
E o que é isso: mecanismo de defesa?
1) MECANISMO DE DEFESA É UMA MANIPULAÇÃO DA PERCEPÇÃO, PARA PROTEGER VOCÊ DA ANSIEDADE DIANTE DO PERIGO.
2) MAS NÃO SÓ DA ANSIEDADE. A FUNÇÃO DO MECANISMO DE DEFESA É MANTER VOCÊ IMPERMEÁVEL À SENSAÇÃO DE DESAMPARO DIANTE DO PERIGO.
Ufa! Já viu que essa conversa é longa, né.
Pra começar, observe os termos: manipulação da percepção. Ninguém manipula a realidade. Não há como manipular a realidade, até porque ninguém sabe direito o que ela é. O que a gente manipula é a percepção da realidade, só a percepção. Mas, Ô... manipula mesmo e o tempo todo!
Imagine que a esposa, no aniversário dela, esperando um anel da Vivara, ganhe de presente do marido um ferro de passar roupa, novinho! (Silêncio sobre a Terra.) Opção 1: ela arrebenta a cabeça dele com o ferro. Opção 2: ela diz pra si mesma: Que bom! O outro aparelho já estava velho, mesmo! E vai, feliz que só, passar a roupa que lhe cabe nessa vida.
Ela manipulou algo dentro de si. Mas não foi a realidade: a do ferro que veio no lugar no anel. A realidade continua lá, bunitinha, no mesmo lugar. O que ela manipulou foi a percepção da realidade, foi o jeito de enxergar e de carregar um peso que desanca qualquer um.
O real é sempre o mesmo. Mas, e se você não aguentar com ele? E se você não conseguir nem olhar pra ele? E se você não puder nem pensar nele?
O paciente de câncer, depois da cirurgia, precisa realmente acreditar “que jogou aquilo fora, que acabou o problema, que ele está novo em folha, e sai pra lá urucubaca!” Se o sujeito sabe ou não que não é bem assim, não faz diferença. Naquele momento, faz toda diferença, pensar daquela forma, raciocinar aquele jeito, resolver assim. E se não resolver? Ah, isso a gente vê depois!
Tem coisa que é difícil de pensar. Pensar, dói. “Por pensamentos e palavras, atos e omissões.” Mas pensar, pode! Pelo menos, isso, pode! A questão é se você permite. Por falar nisso, você permite? Você deixa você pensar naquilo que você pode pensar? Ou, quem sabe, ainda sejamos crianças, que acreditam no pensamento mágico, do tipo, quando a gente tinha de bater na boca se falasse o nome “da doença feia”? Aquilo era mágico; se falasse, pegava. Nas horas de angústia, quando regredimos e infantilizamos, o pensamento mágico pode nos escorar e nos manter em pé. Pode. Mas é um equilíbrio frágil, frágil demais.
A questão é o que fazer com o pensamento que não para de pensar. Ô bichinho! Parece cupim!
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
DIVÃ 11
Falei, ali atrás, da “bela alma”, e esqueci-me de dizer que tudo se resume ao que uma amiga diz: “Todo hábito de freira esconde um espartilho vermelho”. A “bela alma” tenta esconder demônios preocupantes. Mas eles existem. E aí, quando ela vem para a análise, e a análise desperta esses demônios adormecidos, meu Deus, o que fazer?! Não era melhor que continuassem adormecidos? Depende. Depende de como o sujeito pretende que seja esse “adormecer”: uma porque demônio não dorme; outra, porque você não dorme; terceira, porque se o hábito de freira for branco, o espartilho vermelho vai aparecer. Ah, se vai!
Falo isso, porque, geralmente, na análise como na vida, não existe “bandido”. Só “mocinho”. Cada um traz no embornal a certeza de que ele é bom e o resto do mundo nem tanto assim. Lembro-me do papai quando dizia: Todo mundo é muito bonzinho, mas as minhas galinhas tão sumindo todas!
Então, o que a análise faz? Ela questiona o mocinho embutido no bandido. Será que a gente é mesmo assim tão mocinho quanto almeja parecer? Não será mais inteligente considerar que todo mocinho esconda um bandido, todo hábito de freira um espartilho vermelho?
Mas é tão complicado questionar o “mocinho”! Desvendar o espartilho sob o hábito, então, nem se fale!
Um sujeito, certa vez, me pediu que eu não lhe devolvesse apenas o que ele dissesse, que não só regurgitasse aquilo que ele havia falado, segundo ele, “que nem criança regurgita queijinho!” E completou: Se for para ficar apenas no “Ah! Que ruim que aconteceu isso com você”, então vamos pro bar, beber. No lugar do analista, dizia ele, se espera que o analista não fique perdido na cortina de fumaça do paciente! O analista tem de dizer “sim” se for sim, “não” se for não, e, às vezes, “siiimmm” e, às vezes, “nãããooo”!
Falo isso, porque não é raro o sujeito pegar a barda de se esconder atrás dos sintomas. “É a minha psoríase”, “é a minha depressão”, “é a minha ansiedade”, “é a minha enxaqueca”... Mas esses são os seus sintomas, falo sempre pro dono deles. Cadê você? Quem é você? O que o traz aqui? O que faz você viver? E o que o impede? Por que você não voa com asas que tem? Que dependência é essa de que o outro vá para você poder ir? Que dependência é essa de que o outro queira pra você poder querer? Por que se esconder tanto atrás de uma imagem se você nem sabe direito como ela é?
Entende?
Falo isso, porque, geralmente, na análise como na vida, não existe “bandido”. Só “mocinho”. Cada um traz no embornal a certeza de que ele é bom e o resto do mundo nem tanto assim. Lembro-me do papai quando dizia: Todo mundo é muito bonzinho, mas as minhas galinhas tão sumindo todas!
Então, o que a análise faz? Ela questiona o mocinho embutido no bandido. Será que a gente é mesmo assim tão mocinho quanto almeja parecer? Não será mais inteligente considerar que todo mocinho esconda um bandido, todo hábito de freira um espartilho vermelho?
Mas é tão complicado questionar o “mocinho”! Desvendar o espartilho sob o hábito, então, nem se fale!
Um sujeito, certa vez, me pediu que eu não lhe devolvesse apenas o que ele dissesse, que não só regurgitasse aquilo que ele havia falado, segundo ele, “que nem criança regurgita queijinho!” E completou: Se for para ficar apenas no “Ah! Que ruim que aconteceu isso com você”, então vamos pro bar, beber. No lugar do analista, dizia ele, se espera que o analista não fique perdido na cortina de fumaça do paciente! O analista tem de dizer “sim” se for sim, “não” se for não, e, às vezes, “siiimmm” e, às vezes, “nãããooo”!
Falo isso, porque não é raro o sujeito pegar a barda de se esconder atrás dos sintomas. “É a minha psoríase”, “é a minha depressão”, “é a minha ansiedade”, “é a minha enxaqueca”... Mas esses são os seus sintomas, falo sempre pro dono deles. Cadê você? Quem é você? O que o traz aqui? O que faz você viver? E o que o impede? Por que você não voa com asas que tem? Que dependência é essa de que o outro vá para você poder ir? Que dependência é essa de que o outro queira pra você poder querer? Por que se esconder tanto atrás de uma imagem se você nem sabe direito como ela é?
Entende?
domingo, 11 de setembro de 2011
DIVÃ 10
Outra produção artística de resistência à análise é a performance intelectual do analisando. Assim como a “bela alma” traz radiografias e exames clínicos “exigidos” pelo saber médico, e os expõe como testemunhas de um sofrimento atroz, aquele que funciona num registro intelectual traz diplomas dos cursos exigidos por “outro saber”, e ainda que o papel não esteja ali, em mãos, a verdade, a verdade dele, está.
Está no interno do sujeito que chega para dizer, não nessas palavras, mas nesse sentido, que ele gostaria de fazer análise para entender melhor o que o professor do curso tal lhe disse, ou aquilo que ele mesmo pratica. Porque ele leu ali e acolá algo sobre terapia e análise, ou viu no Fantástico... Ah, como é que eu ia me esquecendo da perola negra do Fantástico! Como se não bastasse o final de domingo ser o que é, tem o Fantástico pra tornar o indizível ainda pior, e fazer isso se reproduzir durante a próxima semana, na pergunta que não quer calar: Você viu no Fantástico?
Mas, afinal, por que isso não teria valor? Claro que tem. Ô se tem! Contudo, não deixa de ser perigoso, pelos embustes que esconde. Quem dessa maneira resiste ao que vem buscar na análise, também não deixa de ser outra “bela alma”, só que, desta vez, escondida atrás de outros biombos, plenamente, justificada no interesse da salvação das almas! A primeira “bela alma”, quando chega, traz queixas. Essa segunda produz teorias. Ambas se embalam no ritmo da resistência. A primeira, pelo menos do ponto de vista analítico, quando chega, é mais transparente. A segunda... só Deus sabe!
Lá pelos meados da história da psicanálise, houve um desvio de percurso interessante (quando eu não sei o que dizer, chamo de “interessante”), quando foi imposto a quem quisesse ser analista um tróço chamado “análise didática”. Como será que isso funciona? Tem gente atrás de um vidro vendo o que o analista e o paciente fazem na sala? Ou o paciente procura o analista e gera questões artificiais para que o analista responda a elas e o postulante aprenda como se faz? Ou o analista mantém o ar professoral diante do analisando, faltando apenas à ocasião a lousa e o giz? Pra concluir, pergunto: aquilo que ambos constroem na relação analítica é de mentirinha?
Porque se for, qual é a tua, Cigano Igor?! Parece atuação de ator canastrão que passa cristal japonês na pálpebra enquanto a câmera não fecha nele, para chorar um sentimento que não tem e, às vezes, num olho só.
Isso, isso mesmo, falei uma palavra-chave: chorar. Numa sessão de análise, chora-se, ri-se, esbanja-se sentimento, a granel, e sem embalagem prévia. Se uma análise não for assim, se os sentimentos já chegarem à sessão embalados, industrialmente, e com a receita no pacote, igual bolo de caixinha, isso aí pode ser tudo, pode ser até didático, mas não é análise.
Análise custa. Dá trabalho. Envolve. Machuca. Cura. Tira tudo do lugar para colocar depois, num outro, diferente da prateleira em que os sentimentos chegaram quando o sujeito entrou pela primeira vez pela porta do analista. Analista não tem folga nem férias nem feriado nem final de semana. Eu estou aqui, agora, escrevendo, nesse domingão. Mas quem diz que eu deixo de pensar naqueles que durante a semana regrediram, estancaram o processo, produziram anomalias em sentimentos e ação ou, simplesmente, manifestaram desânimo frente à falta do progresso imaginado. Isso custa, dá trabalho, envolve, tira tudo do lugar. Dói, machuca e cura.
No fim, quando aquele que chegou aos pedaços é devolvido a si mesmo, de novo, inteiro, tudo faz sentido. Tudo vale a pena se a alma não é pequena, né! Só não pode fazer de conta. Nem o analista finge que atende nem o paciente finge que é atendido. Ambos estão ali. Cada um paga seu preço. Não é barato nem pode ser. Mas vale cada investimento.
Está no interno do sujeito que chega para dizer, não nessas palavras, mas nesse sentido, que ele gostaria de fazer análise para entender melhor o que o professor do curso tal lhe disse, ou aquilo que ele mesmo pratica. Porque ele leu ali e acolá algo sobre terapia e análise, ou viu no Fantástico... Ah, como é que eu ia me esquecendo da perola negra do Fantástico! Como se não bastasse o final de domingo ser o que é, tem o Fantástico pra tornar o indizível ainda pior, e fazer isso se reproduzir durante a próxima semana, na pergunta que não quer calar: Você viu no Fantástico?
Mas, afinal, por que isso não teria valor? Claro que tem. Ô se tem! Contudo, não deixa de ser perigoso, pelos embustes que esconde. Quem dessa maneira resiste ao que vem buscar na análise, também não deixa de ser outra “bela alma”, só que, desta vez, escondida atrás de outros biombos, plenamente, justificada no interesse da salvação das almas! A primeira “bela alma”, quando chega, traz queixas. Essa segunda produz teorias. Ambas se embalam no ritmo da resistência. A primeira, pelo menos do ponto de vista analítico, quando chega, é mais transparente. A segunda... só Deus sabe!
Lá pelos meados da história da psicanálise, houve um desvio de percurso interessante (quando eu não sei o que dizer, chamo de “interessante”), quando foi imposto a quem quisesse ser analista um tróço chamado “análise didática”. Como será que isso funciona? Tem gente atrás de um vidro vendo o que o analista e o paciente fazem na sala? Ou o paciente procura o analista e gera questões artificiais para que o analista responda a elas e o postulante aprenda como se faz? Ou o analista mantém o ar professoral diante do analisando, faltando apenas à ocasião a lousa e o giz? Pra concluir, pergunto: aquilo que ambos constroem na relação analítica é de mentirinha?
Porque se for, qual é a tua, Cigano Igor?! Parece atuação de ator canastrão que passa cristal japonês na pálpebra enquanto a câmera não fecha nele, para chorar um sentimento que não tem e, às vezes, num olho só.
Isso, isso mesmo, falei uma palavra-chave: chorar. Numa sessão de análise, chora-se, ri-se, esbanja-se sentimento, a granel, e sem embalagem prévia. Se uma análise não for assim, se os sentimentos já chegarem à sessão embalados, industrialmente, e com a receita no pacote, igual bolo de caixinha, isso aí pode ser tudo, pode ser até didático, mas não é análise.
Análise custa. Dá trabalho. Envolve. Machuca. Cura. Tira tudo do lugar para colocar depois, num outro, diferente da prateleira em que os sentimentos chegaram quando o sujeito entrou pela primeira vez pela porta do analista. Analista não tem folga nem férias nem feriado nem final de semana. Eu estou aqui, agora, escrevendo, nesse domingão. Mas quem diz que eu deixo de pensar naqueles que durante a semana regrediram, estancaram o processo, produziram anomalias em sentimentos e ação ou, simplesmente, manifestaram desânimo frente à falta do progresso imaginado. Isso custa, dá trabalho, envolve, tira tudo do lugar. Dói, machuca e cura.
No fim, quando aquele que chegou aos pedaços é devolvido a si mesmo, de novo, inteiro, tudo faz sentido. Tudo vale a pena se a alma não é pequena, né! Só não pode fazer de conta. Nem o analista finge que atende nem o paciente finge que é atendido. Ambos estão ali. Cada um paga seu preço. Não é barato nem pode ser. Mas vale cada investimento.
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