“Conheço o filho de Jessé de Belém. Ele sabe tocar e é valente guerreiro. Além disso, fala bem, é de bela aparência e D’us está com ele” (1Sm 16,18)
Bem antes do ano 1000 AC, Israel era um lugar sossegaaado!
Aliás, Israel nem existia no mapa. Talvez, por isso fosse sossegado. A gente só tem sossego quando não se importa com aquilo que ditam que a gente seja. Por isso, Israel era um lugar sossegado.
Quando alguém dizia: Ei, Israel! Você é o povo escolhido por Deus! Israel levantava o polegar direito e dizia: Que bom!
Se alguém dizia: Ei, Israel! Você não vale nada! Israel virava as palmas das mãos pra cima e concordava: Que chato!
E ainda quando ou se alguém garantia: Israel, to contigo e não abro! – sabe o que Israel fazia? Seguia em frente, apascentando rebanhos, colhendo o pouco que conseguia plantar no meio das pedras, e adorando um D’us que teimava em afirmar que eles eram o povo eleito. Ainda que toda aparência contrária fosse... contrária.
Israel nem ligava. Apenas plantava, apascentava e esperava, esperava e apascentava e plantava. Aliás, numa coisa Israel se tornou expert: foi em esperar. Até hoje!
Pois é. Israel era um lugar sossegado. Havia pequenas tribos que se auto-geriam através de um governo central. Esse governo central das tribos era “gurusado” (do verbo “gurusar”) , por uma espécie de guru, o velho sacerdote de barba prateada que, a pouco, nós deixamos vagando num caminho estreito com um nó ainda mais estreito na garganta. Como ele anda devagar, não é preciso ter pressa. E nós podemos nos dar o luxo de voltar tempos atrás, quando Israel ainda sabia quem era, quando Israel ainda portava uma identidade, antes de ter perdido a paz.
•
Senta que lá vem a história.
Assim que escapou do Egito, Israel vagou pelo deserto. Depois disso, invadiu (não é de hoje!) ou retomou (depende do ponto de vista) a Palestina, e a partir daí o povo viveu uma espécie de época de ouro da história. (Os gregos tiveram a sua. E os maias, os incas, os celtas...) Naquela época, os hebreus não tinham um rei. Eram liderados por juízes. No tempo dos juízes, Javé era considerado o rei de Israel. Bonito isso, né!
As cidades viviam uma espécie de federação, num regime político de independência. Se enfrentassem algum perigo, podiam se unir num pacto de ajuda. Nem preciso dizer o quanto o povo hebreu vivia sujeito à pilhagem dos inimigos – os filisteus e os amalecitas – gente que havia sido escorraçada da terra quando Israel se re-implantou nela, o equivalente dos árabes de hoje. Pra dizer a verdade, Israel era só um minúsculo corredor de 300 por 45 km, (menor que o trecho SP-RJ), embutido entre as duas potências militares da época, o mar e o deserto. “Se correr o bicho...”
Os líderes eram chamados de juízes. Eles detinham o poder de dirimir as contendas entre os habitantes do lugar, e de trazer a palavra de Javé. Ah, e eles conversavam com D’us! E isso não devia ser pouca coisa! Samuel, que sucedeu a Eli, foi o último dos juízes. Mas na velhice, ele outorgou o poder aos dois filhos: Joel e Abias. E não é que eles foram pra lá de corruptos! (Novidade!)
Parece que a repetição é infalível. Porque a história dos filhos de Samuel apenas repetiu a história dos filhos de Eli, antecessor dele. Também os filhos de Eli haviam se entregue à corrupção. (Novidade, de novo!) Olha só!
Os filhos de Eli eram desonestos e não se preocupavam, nem com Javé, nem com as obrigações de sacerdotes para com o povo. Toda vez que alguém oferecia um sacrifício, enquanto se cozinhava a carne, o ajudante do sacerdote ia com um garfo de três dentes, enfiava-o no caldeirão ou na panela, no tacho ou na travessa, e tudo o que o garfo prendia pertencia ao sacerdote. Assim faziam com todos os israelitas que iam a Silo. Antes de queimar a gordura, o ajudante do sacerdote também dizia à pessoa que ia oferecer o sacrifício: Dê-me a carne, para que o sacerdote asse como quiser. Deve ser carne crua, porque ele não aceitará carne cozida. Se a pessoa respondia: Primeiro é preciso queimar a gordura, depois você poderá levar o que quiser – o ajudante dizia: Não. Ou você me dá a carne agora mesmo, ou a tomarei pela força. O pecado desses ajudantes era grave diante de Javé, porque desonravam a oferta feita a Javé.
Apesar de Eli já ser muito velho, estava sempre informado de tudo o que seus filhos faziam com todos os israelitas, e que eles se deitavam com as mulheres que prestavam serviço na entrada da tenda da reunião. Eli dizia a eles: Por que vocês fazem isso? As pessoas me contam como vocês se comportam mal. Não, meus filhos, o que me contam não é nada bom. Vocês estão escandalizando o povo de Javé. Se um homem ofende outro homem, Deus poderá intervir em favor dele. Mas se alguém peca contra Javé, quem poderá interceder por ele? Eles, porém, não deram ouvidos ao pai, porque Javé tinha decidido tirar-lhes a vida. (1Sm 2, 12-25)
Coisa antiga, né!
Acontece que Eli foi esperto e não deixou que os filhos o sucedessem. Nomeou Samuel no lugar. Samuel, por sua vez, era um pai-coruja, não via os defeitos dos filhos, nada fazia e deixava que eles pilhassem o povo a bel-prazer. O povo não gostou. Uai, quem gosta?
(Diretamente da Rádio Brazópolis!)
Quando já estava velho, Samuel estabeleceu os dois filhos seus como juízes em Israel. Seu primeiro filho se chamava Joel, e o segundo Abias. Os dois exerceram o cargo de juiz em Bersabéia. Eles, porém, não seguiram o exemplo do pai, deixando-se levar pela ganância: aceitaram suborno e distorceram o direito. (1Sm 8,1-4)
Vixi!
Foi aí que o povo começou a clamar por um rei: um governo central, que pudesse unir e proteger o povo contra os perigos externos e os internos. Na verdade, o povo estava dividido quanto à essa história de rei. Mas os desmandos dos filhos de Samuel eram tantos que eles não tiveram escolha. E foram falar com Samuel.
(Diretamente da Central de Notícias!)
Então os anciãos de Israel se reuniram e foram até Samuel, em Ramá. Disseram a Samuel: Veja. Você já está velho e seus filhos não seguem o seu exemplo. Por isso, escolha para nós um rei, para que ele nos governe, como acontece em todas as nações. Não agradou a Samuel a frase que eles disseram: Dê-nos um rei para que nos governe. Então Samuel invocou a
Javé. E Javé disse a Samuel: Atenda à voz do povo em tudo o que eles pedirem... Atenda o pedido deles. Contudo, mostre com clareza e explique para eles o direito do rei que reinará sobre eles. (1Sm 8, 1-8)
Ou seja, mostre a eles a barca furada, o péssimo negócio (esse, de rei) que eles estão pedindo. Mas adiantou? E adianta? Samuel resistiu até onde pode a essa idéia de plebiscito. Na verdade, o que ele não queria era ter os poderes diminuídos. E aí ele elaborou uma lista de inconvenientes, de tirar qualquer um da fila da votação.
Olha a tragédia!
Samuel transmitiu todas as palavras de Javé ao povo que lhe pedia um rei. E lhes disse: Este é o direito do rei que governará vocês: ele convocará os filhos de vocês para cuidar dos carros e cavalos dele, e a correr à frente do seu carro. Ele os obrigará a ararem a terra dele e fazerem a colheita para ele, a fabricarem para ele armas de guerra e as peças dos seus carros. As filhas de vocês serão convocadas para trabalhar como perfumistas, cozinheiras e padeiras. (kkk!) Ele tomará os campos, as vinhas e os melhores olivais de vocês, para dá-los aos ministros. Pegará a décima parte das plantações e vinhas de vocês, e as dará aos oficiais e ministros. Os melhores servos, os bois e jumentos de vocês, ele os tomará para que fiquem a serviço dele, e cobrará, como tributo, a décima parte dos rebanhos. E vocês mesmos serão transformados em escravos dele. Quando isso acontecer, vocês se queixarão do rei que escolheram. Nesse dia, porém, Javé não dará nenhuma resposta a vocês. (1Sm 8, 9-18)
Adiantou? Humm!
O povo não quis nem ouvir as explicações de Samuel, e disse: Não tem importância. Teremos um rei, e seremos também como as outras nações: nosso rei nos governará, irá à nossa frente para comandar nossas guerras. (1Sm 8, 21)
P. da vida, “Samuel ouviu tudo o que o povo disse e foi contar a Javé. E Javé respondeu: Se é isso que eles querem, mande ver! Estabeleça um rei sobre eles.” (1Sm 8, 22)
Como não teve outro jeito, Samuel se curvou à vontade do povo. E a escolha recaiu sobre Saul. Saul era a bola-cheia da vez, o herói do momento. Mas quem disse que Saul queria ser rei! Ou por humildade ou por falsa-humildade ou pelo mais descarado jogo político ou por tudo isso junto, Saul resistiu, bravamente.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
DAVIII... IH! - 1
“Conheço o filho de Jessé de Belém. Ele sabe tocar e é valente guerreiro. Além disso, fala bem, é de bela aparência e D’us está com ele” (1Sm 16,18)
Nunca me canso de observar como Javé, o Senhor dos Exércitos, Deus de Israel e candidato a se tornar Senhor universal tem um mau gosto de assustar! É impressionante como as coisas acontecem na Bíblia! Observe. Adão fez aquela caca, e estamos pagando a conta até hoje. Caim: deu no que deu. Noé, de porre, nem viu que era com as próprias filhas que estava transando. Abraão vendeu Sara e (pior!) entregou. Moisés tinha distúrbio de personalidade. Josué matou homens, mulheres e crianças (crianças!) a fio de espada e achou tudo uma beleza. Saul era um paranóico perigoso que atentou contra a vida do próprio filho. E Davi...
Veja Davi!
A história de Davi não começa num campo de batalha com Golias. Ah, não mesmo! Ou não seria uma história da Bíblia. Na Bíblia, tudo é às avessas, sem pé nem cabeça, ao contrário das expectativas, fora de qualquer previsibilidade. Se você pretende abrir aquelas páginas para encontrar alguma coisa previsível, meu amigo, não abra! Aquilo lá é só pra quem gosta de altas emoções, rafting, descer corredeiras, subir em pedras sem apoio algum, pular de para-queda ou de asa delta, pela primeira vez, e sem ninguém segurando. Se você é daqueles que gostam da sua casinha confortável, da sua caminha limpinha, do seu banheiro cheiroso, então, errou de livro. Melhor pegar a última edição do Atlas de Geografia Mundial. Ou, quem sabe, um manual de psiquiatria farmacêutica cheio de bulas de remédio. Que tal o CID 10! Por que não um dicionário de termos técnicos de engenharia quântica ou de matemática pura? Interessantíssimo!
Mas não a Bíblia! Pelo amor de Deus! E não nas encostas das montanhas de Belém. Porque é lá que estamos. Nas encostas das montanhas de Israel.
Portanto, esqueça tudo o que você já viu em filmes. Sobretudo, se você azia acompanhar de um saco de pipocas com queijo tamanho grande e mais meio litro de refrigerante e mais qualquer porcaria dessas que faz a gente sair da sala de cinema com vontade de vomitar. Esqueça.
Ah! Esqueça também a belíssima estátua de Davi de Michelangelo que enfeita Florença. O jovem de 19 anos que serviu de modelo era amante do escultor e não tinha nada a ver com Davi. Davi era um rei tribal, tosco, sem nenhuma frescura e... Deixa pra lá que isso daqui não é fofoca de programa de TV.
Então, como é mesmo? É sobre Davi que vamos conversar? Então, esqueça tudo o que você já viu. Porque a partir de agora estamos nas montanhas de Belém, na companhia de um velho sacerdote de barba prateada, que anda devagar por um caminho estreito. Uma, porque o caminho é estreito, mesmo. Outra, porque ele está estrangulado de angústia e medo. (Samuel.) Se Saul souber...
É. Porque a coisa já começou torta.
“Javé disse a Samuel: Até quando você vai ficar lamentando Saul? Fui eu mesmo que o rejeitei como rei de Israel. Encha a vasilha de óleo. Ordeno que você vá ter com a família de Jessé, o de Belém, porque eu escolhi um rei entre os filhos dele. Samuel replicou: Como posso ir? Saul me matará se ficar sabendo! Javé, porém, disse: Leve um bezerro, e diga que foi fazer um sacrifício para Javé. Convide Jessé para o sacrifício e eu mostrarei o que você deverá fazer. Você ungirá para mim aquele que eu apontar.” (1Sm 16,1-3).
Quer dizer que... Olha aí, gente, Javé dando um jeitinho brasileiro! O Ministério da Saúde adverte: Cuidado, que Deus é brasileiro!
Mas peraí. Primeiro, o convite. Você quer me acompanhar um pouquinho numa trajetória meio maluca com esse mesmo velho sacerdote de barba cor-de-prata, que agora anda devagar por um caminho estreito? Pode? Então, se prepare, porque a coisa vai longe!
Se você vem me acompanhando em passo de enterro atrás de Lázaro, prepare-se porque atrás de Davi você vai correr. Porque Davi é pura adrenalina. Davi é um sobe-e-desce de montanha russa imprópria para estômagos fracos e labirintites frouxas. Davi é... Daviii... Ih!
Em termos de história bíblica, Davi é o segundo figurão de Israel, perdendo apenas para Moisés – claro! – que ocupa um lugar “hors concours” como pai-fundador do povo. Em termos de história mundial, Davi é o equivalente judeu do Alexandre dos gregos, com direito ao seu Heféstion Amintoros e o bafão geral. Em termos de Hollywood, não entendo como ainda não fizeram uma superprodução sobre ele. Em termos de ficção, são 46 capítulos de puro protagonismo espalhados em três livros do Canon Hebraico. Davi só perde para o “Cavalo de Tróia 1,2,3,4,5,6,7,8,9”... que versa justamente sobre quem? Sobre o “Filho de Davi”. Sim. Porque Jesus não é o Filho de Moisés, é o Filho de Davi. E Hosana hei!
Então, senhoras e senhoras, ladies and gentlemen, the Oscar goes to...
Davi!
E aproveito para dedicar essa série à lembrança dos que não tem nome e à memória dos que não tem memória. E, sobretudo, aos nossos pais. Que não tiveram nem uma coisa nem outra. Mas foram tanto!
Nunca me canso de observar como Javé, o Senhor dos Exércitos, Deus de Israel e candidato a se tornar Senhor universal tem um mau gosto de assustar! É impressionante como as coisas acontecem na Bíblia! Observe. Adão fez aquela caca, e estamos pagando a conta até hoje. Caim: deu no que deu. Noé, de porre, nem viu que era com as próprias filhas que estava transando. Abraão vendeu Sara e (pior!) entregou. Moisés tinha distúrbio de personalidade. Josué matou homens, mulheres e crianças (crianças!) a fio de espada e achou tudo uma beleza. Saul era um paranóico perigoso que atentou contra a vida do próprio filho. E Davi...
Veja Davi!
A história de Davi não começa num campo de batalha com Golias. Ah, não mesmo! Ou não seria uma história da Bíblia. Na Bíblia, tudo é às avessas, sem pé nem cabeça, ao contrário das expectativas, fora de qualquer previsibilidade. Se você pretende abrir aquelas páginas para encontrar alguma coisa previsível, meu amigo, não abra! Aquilo lá é só pra quem gosta de altas emoções, rafting, descer corredeiras, subir em pedras sem apoio algum, pular de para-queda ou de asa delta, pela primeira vez, e sem ninguém segurando. Se você é daqueles que gostam da sua casinha confortável, da sua caminha limpinha, do seu banheiro cheiroso, então, errou de livro. Melhor pegar a última edição do Atlas de Geografia Mundial. Ou, quem sabe, um manual de psiquiatria farmacêutica cheio de bulas de remédio. Que tal o CID 10! Por que não um dicionário de termos técnicos de engenharia quântica ou de matemática pura? Interessantíssimo!
Mas não a Bíblia! Pelo amor de Deus! E não nas encostas das montanhas de Belém. Porque é lá que estamos. Nas encostas das montanhas de Israel.
Portanto, esqueça tudo o que você já viu em filmes. Sobretudo, se você azia acompanhar de um saco de pipocas com queijo tamanho grande e mais meio litro de refrigerante e mais qualquer porcaria dessas que faz a gente sair da sala de cinema com vontade de vomitar. Esqueça.
Ah! Esqueça também a belíssima estátua de Davi de Michelangelo que enfeita Florença. O jovem de 19 anos que serviu de modelo era amante do escultor e não tinha nada a ver com Davi. Davi era um rei tribal, tosco, sem nenhuma frescura e... Deixa pra lá que isso daqui não é fofoca de programa de TV.
Então, como é mesmo? É sobre Davi que vamos conversar? Então, esqueça tudo o que você já viu. Porque a partir de agora estamos nas montanhas de Belém, na companhia de um velho sacerdote de barba prateada, que anda devagar por um caminho estreito. Uma, porque o caminho é estreito, mesmo. Outra, porque ele está estrangulado de angústia e medo. (Samuel.) Se Saul souber...
É. Porque a coisa já começou torta.
“Javé disse a Samuel: Até quando você vai ficar lamentando Saul? Fui eu mesmo que o rejeitei como rei de Israel. Encha a vasilha de óleo. Ordeno que você vá ter com a família de Jessé, o de Belém, porque eu escolhi um rei entre os filhos dele. Samuel replicou: Como posso ir? Saul me matará se ficar sabendo! Javé, porém, disse: Leve um bezerro, e diga que foi fazer um sacrifício para Javé. Convide Jessé para o sacrifício e eu mostrarei o que você deverá fazer. Você ungirá para mim aquele que eu apontar.” (1Sm 16,1-3).
Quer dizer que... Olha aí, gente, Javé dando um jeitinho brasileiro! O Ministério da Saúde adverte: Cuidado, que Deus é brasileiro!
Mas peraí. Primeiro, o convite. Você quer me acompanhar um pouquinho numa trajetória meio maluca com esse mesmo velho sacerdote de barba cor-de-prata, que agora anda devagar por um caminho estreito? Pode? Então, se prepare, porque a coisa vai longe!
Se você vem me acompanhando em passo de enterro atrás de Lázaro, prepare-se porque atrás de Davi você vai correr. Porque Davi é pura adrenalina. Davi é um sobe-e-desce de montanha russa imprópria para estômagos fracos e labirintites frouxas. Davi é... Daviii... Ih!
Em termos de história bíblica, Davi é o segundo figurão de Israel, perdendo apenas para Moisés – claro! – que ocupa um lugar “hors concours” como pai-fundador do povo. Em termos de história mundial, Davi é o equivalente judeu do Alexandre dos gregos, com direito ao seu Heféstion Amintoros e o bafão geral. Em termos de Hollywood, não entendo como ainda não fizeram uma superprodução sobre ele. Em termos de ficção, são 46 capítulos de puro protagonismo espalhados em três livros do Canon Hebraico. Davi só perde para o “Cavalo de Tróia 1,2,3,4,5,6,7,8,9”... que versa justamente sobre quem? Sobre o “Filho de Davi”. Sim. Porque Jesus não é o Filho de Moisés, é o Filho de Davi. E Hosana hei!
Então, senhoras e senhoras, ladies and gentlemen, the Oscar goes to...
Davi!
E aproveito para dedicar essa série à lembrança dos que não tem nome e à memória dos que não tem memória. E, sobretudo, aos nossos pais. Que não tiveram nem uma coisa nem outra. Mas foram tanto!
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
LÁZARO, SAI DESSA, RAPAZ! – 17
E Jesus gritou com voz forte: Lázaro, vem para fora! E o morto saiu, tendo mãos e pés amarrados com faixas, e o rosto envolto num sudário. Disse-lhes Jesus: Desliguem-no e deixem-no ir. (João 11,43-44)
Um caso de melancolia numa casa de Betânia
João 11
Um paciente sempre me faz percorrer três caminhos. No primeiro, eu sinto a dor dele. No segundo, lhe digo: Agora, chega, sai dessa, rapaz! No terceiro, eu me calo: Então, ta. Se você quer ficar nesse caminho, pode. Mas que uma coisa fique clara: tudo o que a gente suporta, de alguma forma, a gente gosta.
Que caminho Jesus mostrou a Marta? O texto não diz. Mas sabemos que depois daquela conversa entrecortada, Marta volta para casa, vai ao encontro de Maria e lhe diz, em segredo: “O Mestre está aí, e te chama”. O que mais chama a atenção é o segredo com que a mensagem é passada.
É o começo das mutações em Maria. Mas é também o começo das mutações em Marta. Ter ido ao encontro de Maria, indicar a ela a direção do Mestre que a chama, significou para Marta não guardá-lo exclusivamente para si, não retê-lo, não privá-lo dos outros nem os outros dele. O Mestre não pertencia a ela nem a Maria nem a Lázaro. O Mestre, simplesmente, “não pertencia”.
Por ter escolhido a melhor parte, é provável que Maria já soubesse disso. Por isso, pôde ficar onde deveria, para ocupar o lugar que era só dela e de nenhum outro. Se ela, agora, se encontrava imobilizada pela dor, e se esse era o seu lugar, era ali que ela devia ficar, para sentir o que está acontecendo, passar por aquele processo e elaborar a frustração do momento, sem sair correndo, desatinada, gritando uma dor que ainda não se permitiu sentir por inteira. O momento é de luto. O que Maria faz, nesse momento, é tudo o que precisa ser feito e nada mais: passar pelo luto.
Ao contrário do que se possa imaginar, Maria não é nem se faz de vítima. Se o sofrimento abate, ela sofre. Se a dor verga, ela se verga. Não fica contando com o consolo dos judeus que a foram “consolar”. Até porque ela sabe que não é bem consolo o que eles lhe têm a oferecer. Maria se permite sofrer. E por isso dá até a impressão de se ter trancado em sua via dolorosa. Mas não é verdade! Maria só se fecha em si para poder sofrer o que é preciso, sentir o sentimento necessário e aprender a se conhecer onde geralmente todos os outros se escondem e escapam de si mesmos. Iludir-se é eludir-se.
“O mestre está aí e te chama”.
A voz do segredo a tira do imobilismo de gesso da dor. Maria corre e se prostra. Prostração que é adoração – proschynesis – adoração, em grego.
Mas podemos também enxergar ali uma outra semântica do estado em que ela se encontra. Ela se prostra porque está prostrada. Também porque está prostrada. Lázaro cansou-se, desiludiu-se, frustrou-se, desanimou, morreu. Entregou-se à banalização da vida. Tornaram-se apenas mais um. E logo ele, Lázaro, o amigo do amigo! Não era para ser “apenas mais um”! Ninguém é amado para ser apenas mais um. Ninguém que é amado consegue ser apenas mais um. Lázaro foi a honrosa exceção de uma regra ainda mais honrosa.
Quando Maria se dá conta disso, à beira de onde Lázaro jaz, ela se prostra e, de certa forma, e por que não, imita Lázaro, e morre um pouco, também. E já que repete Lázaro, repete Marta também: “Se o Senhor estivesse aqui, meu irmão não teria morrido.” O sinal de que Maria morria um pouco da mesma morte de Lázaro e da mesma mortificação interna de Marta é o fato de ela repetir a mesma frase de Marta, e por pura repetição. Aquela frase não cabe na sua boca nem nos seus sentimentos. De repente, ela abandona o título íntimo de “Mestre” – Didáskalos – e o chama de “Senhor” – Kyrios – título solene e formal. Esse é o sinal do distanciamento que nesse momento denuncia o quanto Maria estava morrendo também.
Mas a melhor parte dela permanece sadia. Ela chora. Deixa os sentimentos fluírem. E Jesus pôde constatar aquele choro de dor. Ao contrário de Marta, que interroga a dor, Maria sente a dor. Marta projeta a dor para o mundo externo e sai acusando o primeiro que encontra de não ter estado ali, na hora que ela, e só ela, designara como certa. Maria, não! Maria introjeta a dor, viaja para o seu mundo interno, que é a pátria da dor, onde ela possa ser sentida, com certidão de nascimento.
Embora repita a frase de Marta, aquela frase não é dela, não combina com ela, não faz parte do seu mundo, não cabe no seu vocabulário. E por uma razão bastante simples: o mundo de Maria não é construído de projeções. Diferente de Marta, Maria pôde reconhecer o que é seu, para si mesma, e reter consigo o que lhe pertencia, e que só a ela cabia viver. Maria, a irmã mais nova de Lázaro, é uma raridade que compreendeu, por conta e risco, que o desejo, seja qual seja, não exige realização, mas reconhecimento.
Ao reconhecer o desejo que a sustenta – Marta lhe diz em segredo: O mestre está aí e te chama – e o segredo que a anima, Maria vive.
Um caso de melancolia numa casa de Betânia
João 11
Um paciente sempre me faz percorrer três caminhos. No primeiro, eu sinto a dor dele. No segundo, lhe digo: Agora, chega, sai dessa, rapaz! No terceiro, eu me calo: Então, ta. Se você quer ficar nesse caminho, pode. Mas que uma coisa fique clara: tudo o que a gente suporta, de alguma forma, a gente gosta.
Que caminho Jesus mostrou a Marta? O texto não diz. Mas sabemos que depois daquela conversa entrecortada, Marta volta para casa, vai ao encontro de Maria e lhe diz, em segredo: “O Mestre está aí, e te chama”. O que mais chama a atenção é o segredo com que a mensagem é passada.
É o começo das mutações em Maria. Mas é também o começo das mutações em Marta. Ter ido ao encontro de Maria, indicar a ela a direção do Mestre que a chama, significou para Marta não guardá-lo exclusivamente para si, não retê-lo, não privá-lo dos outros nem os outros dele. O Mestre não pertencia a ela nem a Maria nem a Lázaro. O Mestre, simplesmente, “não pertencia”.
Por ter escolhido a melhor parte, é provável que Maria já soubesse disso. Por isso, pôde ficar onde deveria, para ocupar o lugar que era só dela e de nenhum outro. Se ela, agora, se encontrava imobilizada pela dor, e se esse era o seu lugar, era ali que ela devia ficar, para sentir o que está acontecendo, passar por aquele processo e elaborar a frustração do momento, sem sair correndo, desatinada, gritando uma dor que ainda não se permitiu sentir por inteira. O momento é de luto. O que Maria faz, nesse momento, é tudo o que precisa ser feito e nada mais: passar pelo luto.
Ao contrário do que se possa imaginar, Maria não é nem se faz de vítima. Se o sofrimento abate, ela sofre. Se a dor verga, ela se verga. Não fica contando com o consolo dos judeus que a foram “consolar”. Até porque ela sabe que não é bem consolo o que eles lhe têm a oferecer. Maria se permite sofrer. E por isso dá até a impressão de se ter trancado em sua via dolorosa. Mas não é verdade! Maria só se fecha em si para poder sofrer o que é preciso, sentir o sentimento necessário e aprender a se conhecer onde geralmente todos os outros se escondem e escapam de si mesmos. Iludir-se é eludir-se.
“O mestre está aí e te chama”.
A voz do segredo a tira do imobilismo de gesso da dor. Maria corre e se prostra. Prostração que é adoração – proschynesis – adoração, em grego.
Mas podemos também enxergar ali uma outra semântica do estado em que ela se encontra. Ela se prostra porque está prostrada. Também porque está prostrada. Lázaro cansou-se, desiludiu-se, frustrou-se, desanimou, morreu. Entregou-se à banalização da vida. Tornaram-se apenas mais um. E logo ele, Lázaro, o amigo do amigo! Não era para ser “apenas mais um”! Ninguém é amado para ser apenas mais um. Ninguém que é amado consegue ser apenas mais um. Lázaro foi a honrosa exceção de uma regra ainda mais honrosa.
Quando Maria se dá conta disso, à beira de onde Lázaro jaz, ela se prostra e, de certa forma, e por que não, imita Lázaro, e morre um pouco, também. E já que repete Lázaro, repete Marta também: “Se o Senhor estivesse aqui, meu irmão não teria morrido.” O sinal de que Maria morria um pouco da mesma morte de Lázaro e da mesma mortificação interna de Marta é o fato de ela repetir a mesma frase de Marta, e por pura repetição. Aquela frase não cabe na sua boca nem nos seus sentimentos. De repente, ela abandona o título íntimo de “Mestre” – Didáskalos – e o chama de “Senhor” – Kyrios – título solene e formal. Esse é o sinal do distanciamento que nesse momento denuncia o quanto Maria estava morrendo também.
Mas a melhor parte dela permanece sadia. Ela chora. Deixa os sentimentos fluírem. E Jesus pôde constatar aquele choro de dor. Ao contrário de Marta, que interroga a dor, Maria sente a dor. Marta projeta a dor para o mundo externo e sai acusando o primeiro que encontra de não ter estado ali, na hora que ela, e só ela, designara como certa. Maria, não! Maria introjeta a dor, viaja para o seu mundo interno, que é a pátria da dor, onde ela possa ser sentida, com certidão de nascimento.
Embora repita a frase de Marta, aquela frase não é dela, não combina com ela, não faz parte do seu mundo, não cabe no seu vocabulário. E por uma razão bastante simples: o mundo de Maria não é construído de projeções. Diferente de Marta, Maria pôde reconhecer o que é seu, para si mesma, e reter consigo o que lhe pertencia, e que só a ela cabia viver. Maria, a irmã mais nova de Lázaro, é uma raridade que compreendeu, por conta e risco, que o desejo, seja qual seja, não exige realização, mas reconhecimento.
Ao reconhecer o desejo que a sustenta – Marta lhe diz em segredo: O mestre está aí e te chama – e o segredo que a anima, Maria vive.
SAMUEL, SAMUEL!
A palavra “vocação” significa chamado. O conceito “vocação” é um dos fenômenos humanos de mais difícil apreensão. Tanto que toda vez que lidamos com esse fenômeno, a palavra precisa ser escrita entre aspas: “vocação”. Assim. É que a psicologia descarta a idéia de vocação como sendo um “chamado”. A menos, é claro, que se possa dizer que a voz do chamado – aquela que o sujeito ouviu – chegou até ele por meio de todas as contingências e vicissitudes do ambiente. E que ele só conseguiu ouvir essa “voz diferente” em meio a todos os ruídos do dia-a-dia e apesar deles, porque algum canal especial foi construído. “Pamonha, pamonha, pamonha, pamonha de Piracicaba!” Ruído, ruído, ruído... É o que mais a vida tem. E a menos que o sujeito consiga ouvir essa “voz diferente” no meio do barulhão, de outra forma não sei de onde e como ela poderá ser ouvida. A psicologia desconhece que possa haver uma voz de não-sei-onde... chamando-não-sei-quem... pra-não-sei-o-quê. Mas o fato inquestionável é que tem quem ouça. Se tiver quem ouça, nem que seja alucinatoriamente, a voz existe.
Mas, então, que voz é essa? Existe? Não existe? Vem de onde? Como consegue ser ouvida? A quem se endereça e a quem pode interessar?
Você já sabe que eu não sei, né! Eu adoro levantar questões para as quais eu mesmo procuro a resposta. Fica mais honesto assim, do que sair por aí, sem procuração alguma, oferecendo saídas até para quem não quis sequer entrar.
É que meu caso é grave e requer internação. Fui acostumado desde a pré-infância do seminário a entender a “vocação” como um chamado: um “oi!”, um “ó de casa!”. Portanto, não é fácil mudar o rumo da prosa, nessa altura dos acontecidos, e é com certa restrição que me proponho a entender que a voz só exista dentro de quem a ouve e só ganha existência quando alguém se dispõe a ouvir, e só existe para quem se disponha a ouvi-la. Mas, então, existe ou não existe? Existe, uai! Tanto que é ouvida. Acolhida. Tanto que modifica. Ratifica. Retifica. Remove. Reitera. Revigora. Redunda. Renasce.
A questão não é se existe. É como existe.
No contexto religioso, quem chama é Deus. E chama a quem ele quer. Mas como assim? Como saber (do tipo: ter certeza) que é Deus mesmo que chama, em vez da minha imaginação, minhas circunstâncias, minhas necessidades, e a enorme capacidade que tenho de me esconder atrás de mim mesmo para não questionar... a mim mesmo?
A força (e a fraqueza) de toda religião é que ela trabalha com pensamentos essencialistas: é porque é, e acabou. Era a mesma coisa de tomar Emulsão Scott (óleo de fígado de bacalhau, lembra?) na infância: fecha o olho e abre a boca. A falha geológico-mental desse tipo de pensamento é que ele só responde a quem quer que ele corresponda. A resposta está pronta. Só precisa acreditar nela! Sem a amarração inimaginável da crença, e na ausência de um andaime sustentável, esse pensamento desaba que nem arquibancada de show montada às pressas. Para quem quer pensar, o andaime do pensamento precisa ser firme. Pode ser até de bambu: leve, porém, resistente, e, sobretudo, bem amarrado.
É aí que ta! Ao pensamento que rege e mantém o arcabouço religioso falta a leveza e a resistência do bambu. Sem falar da amarração. Ele acaba sendo pesado demais, custoso demais, espaçoso demais, ocioso demais. Acreditar, pura e simplesmente, no fato de que um sujeito foi diretamente chamado por Deus, confere a essa criatura um poder roubado ao Criador. Depois, quando esse poder fica pesado demais, custoso demais, espaçoso demais, ocioso demais, não adianta reclamar do leite derramado. Conferiram ao sujeito prerrogativas e ele as usou. Sorte dele!
Não é difícil entender como a engrenagem funciona. Mas é preciso voltar ao que foi esquecido antes de ter sido conhecido. Por exemplo, à vocação de Samuel. Quem quiser, pode verificar a La Carte, no Primeiro Livro de Samuel capítulo 3. Desde já vou dizendo que Samuel significa “ouvir Deus”.
“Samuel, Samuel!”
Pois é. Quem a voz chama é ainda um menino, que dorme, à noite, depois de ter brincado o dia todo: bolinha de gude, futebol, videogame... E o menino, que se chama justamente Samuel, não faz a menor idéia de quem o está importunando no meio da noite. Afinal, naqueles tempos, noite ainda era feita para dormir.
Se você ler direito, vai perceber, aí, a descrição de uma vocação em “câmera rápida”. Já que a gente sabe o que é câmera lenta, pode imaginar o que seja câmera rápida. Ou seja, um relato apresentado de uma maneira muito acelerada, onde os acontecimentos são apertados dentro de um pequeno cubículo de tempo. Com Samuel foi assim. Três vezes na mesma noite o menino escutou uma voz desconhecida chamando seu nome: “Samuel, Samuel!” Só na última vez, e com a ajuda do sacerdote Eli – personal trainer de profetas – foi que ele pode perceber que quem o chamava não era nenhum ninguém, mas um baita alguém.
Os relatos da Bíblia são assim. Eles contam um fato rapidinho, como se tudo tivesse acontecido num estalar de dedos. Isso não deixa de ser perigoso! Acaba levando muita gente incauta a querer que as coisas se desenrolem num estalar de dedos. Na verdade, caso você não sabia ouso informar-lhe que não existe “estalo-de-dedo” para as realidades humanas. As ocorrências humanas apenas conseguem ser percebidas bem depois, e bota bem depois nisso! Nada acontece num passe de mágica. Tudo leva anos e anos em compasso de espera, à espera do que a espera consiga elaborar. Sim. Porque só a espera pode fazer o que a magia não alcança. Porque nem existe, né!
Para perceber em riqueza de detalhes aquilo que é descrito em câmera rápida, a gente precisa desacelerar o compasso, de presto para andante. Mas, aí, quando tiramos a pressa, o que fica? Fica a leveza. Porque a pressa não só é inimiga da perfeição, mas também da leveza.
Não me canso de repetir o que foi carimbado pela guru-master (só conto pra quem perguntar) a respeito do texto bíblico. A Bíblia é um texto em cartaz há 4000 anos e nenhum texto fica em cartaz tanto tempo se não tiver nada a acrescentar. O que me entristece é que a quirera-miúda carregada de piadinhas toscas, espalhada dos púlpitos a guisa de tornar o texto bíblico “interessante”, não faça nada mais do que torná-lo irrelevante, decadente, obtuso e obsoleto. Evito dizer frívolo e leviano. E é um texto em cartaz há 4000 anos, lembre-se! Lembre isso aos “propagandistas” também.
Na história de Samuel, a gente pode ver que geralmente, um chamado não é escutado de primeira. A voz fala, mas eles não escutam, não entendem, não concordam, não discernem, não distinguem entre uma voz e outra. Aliás, nem mesmo precisava ser uma voz. Aliás, sequer era uma voz. Podia ser a experiência de um pôr-do-sol estupendo, de uma noite de lua cheia e estrelada, a sensação inesperada de uma intensa alegria sem estímulo concreto, a intuição de uma grandeza sem fim, uma perda incontornável, a convicção de que a vida não é banal... Tudo isso é “voz”. Tudo isso pode ser “ouvido”. Nem carece ser especial, muito menos ser bancado, pra ouvir essa “voz”.
Quando eu era criança nas Minas, nenhum vereador ganhava pelo trabalho que exercia em beneficio da coletividade. O único bônus residia no fato de que, no final da vida, o tempo em que o sujeito serviu ao bem comum podia ser acrescentado à merreca da aposentadoria oficial. Mas o grande ganho era mesmo o serviço prestado. Esse, não tinha preço.
Nos tempos de Samuel, ser chamado ao bem-comum de Israel também não tinha preço. Tinha encargos, mas nenhum cargo. Naquela época, ministério ainda não vinha, mas já tinha o sentido de ministerium e ministrare, do latim, que significam serviço e servir. Mais tarde, a vocação desses servidores, servos dos servos, foi se revestindo, paulatinamente, de tanto frufru, que se descaracterizou. O pálido reflexo do que era, do que devia ser, perdeu-se no meio das côngruas e garantias oficiais de uma profissão não-oficial.
Vocação, como aprendi, era escutar o próprio nome, a partir de si, do lado de dentro, e responder em primeira pessoa: “Samuel, Samuel!” A resposta era: To nessa!
Não há senão uma única palavra que nos comove totalmente, que consegue unificar toda a nossa atenção, mobilizar o centro do ser numa única direção. Essa palavra é o nosso nome. O fato de o texto apresentar Deus chamando Samuel pelo nome é altamente significativo. O fato de ele ter sido chamado três vezes na mesma noite (câmera rápida, lembra?) não significa que o isso se deu às 23 horas, às 2 e às 4 da manhã. Quantos anos tinha Samuel quando escutou pela primeira vez aquela “inexplicável voz”? E quantos anos levou para escutá-la em sua terceira e decisiva versão? 20, 30, 50 anos? Por sorte, o personal trainer Eli não o abandonou em sua desordenada intuição de escutar vozes.
“Samuel, Samuel!”
O texto bíblico não conta o que foi dito a Samuel naquela noite. Caso realmente Deus fale, nenhum texto escrito será capaz de transmitir sua voz e o que ele pretende quando fala a um coração humano. O que sabemos é que desde aquele momento, Samuel não foi mais apenas Samuel. Não foi cuidar de sua vida, não foi comprar e vender, não foi se dedicar de corpo-e-alma a cuidar de si mesmo e de seus negócios. Não que isso seja errado. Ô! Errado, errado, não é. É sempre a ética que traça o caminho.
Mas o fato é que a partir daquele momento, do evento daquele “Samuel, Samuel!”, o menino que cresceu já era outro. A noite passou. E com ela todos os medos e incertezas. Samuel ungiu Saul rei de Israel. E quando Saul pisou na bola e feio, Samuel voltou atrás e ungiu Davi rei de Israel. E morreu antes de ver Davi pisando na bola, e feio, também. Samuel não suportava ver gente ungida pisando na jaca!
Quando morreu, a Escritura Hebraica fez o necrológio mais econômico da História em apenas duas palavras: “Samuel morreu”. Não parece muito para quem foi grande. Talvez também nisso ele fosse grande: economizou discursos desnecessários de despedida, daqueles em que a gente escuta e chora e sai dali e se encontra na padaria... para um chops.
Por que Samuel? Sim. Ia esquecendo. Por que Samuel? Talvez porque ele seja o protótipo de alguém que ouve o que não foi dito e escuta a partir de dentro. Talvez porque ele tenha experimentado uma espécie de integridade única que o fez merecedor de escutar a voz (“Samuel” = ouvir Deus, lembra?). Talvez porque naquela leva de gente que engrossa o álbum de fotos de família chamado Bíblia, ele tenha sido o mais honesto. Abraão vendeu Sara, Jacó traiu Esaú, Moisés era político (!), Saul, um paranóico bravo, e Davi, ah meu Deus!, Davi: prefiro não comentar! Samuel foi honesto até a raiz da árvore. Não há como ouvir voz alguma se não houver honestidade. Esse é o quesito sine qua non do assim chamado fenômeno humano da “vocação”. Sempre entre aspas, ta.
Se eu não consegui expressar direito o que seja “vocação”, talvez consiga mostrar.
Bem no centro do campus da Universidade de Harvard, existe um edifício ostensivamente europeu, estilo século XVII. É um museu da cultura alemã: o Busch-Reisinger Museum. Ele possui uma coleção esplêndida de arte clássica alemã. Mas o diamante da coroa, sem dúvida, é o órgão de tubos mundialmente conhecido. Toda quarta-feira, ao meio dia, há um concerto com entrada franca.
No entanto, o que mais chama a atenção naquilo tudo é a inscrição no portal do prédio, no original alemão, de Schiller: “Es ist der Geist, der sich den Körper baut”. (Tecla SAP) É O ESPÍRITO QUE CONSTRÓI UM CORPO PARA SI. Talvez seja essa a frase que mais de perto toque a essência do fenômeno da “vocação”, esse sentir vozes na ausência de um delírio. Ou pelo menos dentro de um delírio retocado de beleza humanizada.
Talvez seja por isso que Thomas Merton, monge, disse que “Até a idade de quarenta anos, cada um de nós terá a cara que merece”. Porque nossa cara não nos acontece; é construída dia após dia pela nossa história e pelo espírito dentro de nós. A tal da “vocação”, também.
Devo algumas idéias a Dom Bernardo Bonowitz OCSO – um cara muito bom, mas que corre um risco danado de ficar famoso, e aí se perder.
Mas, então, que voz é essa? Existe? Não existe? Vem de onde? Como consegue ser ouvida? A quem se endereça e a quem pode interessar?
Você já sabe que eu não sei, né! Eu adoro levantar questões para as quais eu mesmo procuro a resposta. Fica mais honesto assim, do que sair por aí, sem procuração alguma, oferecendo saídas até para quem não quis sequer entrar.
É que meu caso é grave e requer internação. Fui acostumado desde a pré-infância do seminário a entender a “vocação” como um chamado: um “oi!”, um “ó de casa!”. Portanto, não é fácil mudar o rumo da prosa, nessa altura dos acontecidos, e é com certa restrição que me proponho a entender que a voz só exista dentro de quem a ouve e só ganha existência quando alguém se dispõe a ouvir, e só existe para quem se disponha a ouvi-la. Mas, então, existe ou não existe? Existe, uai! Tanto que é ouvida. Acolhida. Tanto que modifica. Ratifica. Retifica. Remove. Reitera. Revigora. Redunda. Renasce.
A questão não é se existe. É como existe.
No contexto religioso, quem chama é Deus. E chama a quem ele quer. Mas como assim? Como saber (do tipo: ter certeza) que é Deus mesmo que chama, em vez da minha imaginação, minhas circunstâncias, minhas necessidades, e a enorme capacidade que tenho de me esconder atrás de mim mesmo para não questionar... a mim mesmo?
A força (e a fraqueza) de toda religião é que ela trabalha com pensamentos essencialistas: é porque é, e acabou. Era a mesma coisa de tomar Emulsão Scott (óleo de fígado de bacalhau, lembra?) na infância: fecha o olho e abre a boca. A falha geológico-mental desse tipo de pensamento é que ele só responde a quem quer que ele corresponda. A resposta está pronta. Só precisa acreditar nela! Sem a amarração inimaginável da crença, e na ausência de um andaime sustentável, esse pensamento desaba que nem arquibancada de show montada às pressas. Para quem quer pensar, o andaime do pensamento precisa ser firme. Pode ser até de bambu: leve, porém, resistente, e, sobretudo, bem amarrado.
É aí que ta! Ao pensamento que rege e mantém o arcabouço religioso falta a leveza e a resistência do bambu. Sem falar da amarração. Ele acaba sendo pesado demais, custoso demais, espaçoso demais, ocioso demais. Acreditar, pura e simplesmente, no fato de que um sujeito foi diretamente chamado por Deus, confere a essa criatura um poder roubado ao Criador. Depois, quando esse poder fica pesado demais, custoso demais, espaçoso demais, ocioso demais, não adianta reclamar do leite derramado. Conferiram ao sujeito prerrogativas e ele as usou. Sorte dele!
Não é difícil entender como a engrenagem funciona. Mas é preciso voltar ao que foi esquecido antes de ter sido conhecido. Por exemplo, à vocação de Samuel. Quem quiser, pode verificar a La Carte, no Primeiro Livro de Samuel capítulo 3. Desde já vou dizendo que Samuel significa “ouvir Deus”.
“Samuel, Samuel!”
Pois é. Quem a voz chama é ainda um menino, que dorme, à noite, depois de ter brincado o dia todo: bolinha de gude, futebol, videogame... E o menino, que se chama justamente Samuel, não faz a menor idéia de quem o está importunando no meio da noite. Afinal, naqueles tempos, noite ainda era feita para dormir.
Se você ler direito, vai perceber, aí, a descrição de uma vocação em “câmera rápida”. Já que a gente sabe o que é câmera lenta, pode imaginar o que seja câmera rápida. Ou seja, um relato apresentado de uma maneira muito acelerada, onde os acontecimentos são apertados dentro de um pequeno cubículo de tempo. Com Samuel foi assim. Três vezes na mesma noite o menino escutou uma voz desconhecida chamando seu nome: “Samuel, Samuel!” Só na última vez, e com a ajuda do sacerdote Eli – personal trainer de profetas – foi que ele pode perceber que quem o chamava não era nenhum ninguém, mas um baita alguém.
Os relatos da Bíblia são assim. Eles contam um fato rapidinho, como se tudo tivesse acontecido num estalar de dedos. Isso não deixa de ser perigoso! Acaba levando muita gente incauta a querer que as coisas se desenrolem num estalar de dedos. Na verdade, caso você não sabia ouso informar-lhe que não existe “estalo-de-dedo” para as realidades humanas. As ocorrências humanas apenas conseguem ser percebidas bem depois, e bota bem depois nisso! Nada acontece num passe de mágica. Tudo leva anos e anos em compasso de espera, à espera do que a espera consiga elaborar. Sim. Porque só a espera pode fazer o que a magia não alcança. Porque nem existe, né!
Para perceber em riqueza de detalhes aquilo que é descrito em câmera rápida, a gente precisa desacelerar o compasso, de presto para andante. Mas, aí, quando tiramos a pressa, o que fica? Fica a leveza. Porque a pressa não só é inimiga da perfeição, mas também da leveza.
Não me canso de repetir o que foi carimbado pela guru-master (só conto pra quem perguntar) a respeito do texto bíblico. A Bíblia é um texto em cartaz há 4000 anos e nenhum texto fica em cartaz tanto tempo se não tiver nada a acrescentar. O que me entristece é que a quirera-miúda carregada de piadinhas toscas, espalhada dos púlpitos a guisa de tornar o texto bíblico “interessante”, não faça nada mais do que torná-lo irrelevante, decadente, obtuso e obsoleto. Evito dizer frívolo e leviano. E é um texto em cartaz há 4000 anos, lembre-se! Lembre isso aos “propagandistas” também.
Na história de Samuel, a gente pode ver que geralmente, um chamado não é escutado de primeira. A voz fala, mas eles não escutam, não entendem, não concordam, não discernem, não distinguem entre uma voz e outra. Aliás, nem mesmo precisava ser uma voz. Aliás, sequer era uma voz. Podia ser a experiência de um pôr-do-sol estupendo, de uma noite de lua cheia e estrelada, a sensação inesperada de uma intensa alegria sem estímulo concreto, a intuição de uma grandeza sem fim, uma perda incontornável, a convicção de que a vida não é banal... Tudo isso é “voz”. Tudo isso pode ser “ouvido”. Nem carece ser especial, muito menos ser bancado, pra ouvir essa “voz”.
Quando eu era criança nas Minas, nenhum vereador ganhava pelo trabalho que exercia em beneficio da coletividade. O único bônus residia no fato de que, no final da vida, o tempo em que o sujeito serviu ao bem comum podia ser acrescentado à merreca da aposentadoria oficial. Mas o grande ganho era mesmo o serviço prestado. Esse, não tinha preço.
Nos tempos de Samuel, ser chamado ao bem-comum de Israel também não tinha preço. Tinha encargos, mas nenhum cargo. Naquela época, ministério ainda não vinha, mas já tinha o sentido de ministerium e ministrare, do latim, que significam serviço e servir. Mais tarde, a vocação desses servidores, servos dos servos, foi se revestindo, paulatinamente, de tanto frufru, que se descaracterizou. O pálido reflexo do que era, do que devia ser, perdeu-se no meio das côngruas e garantias oficiais de uma profissão não-oficial.
Vocação, como aprendi, era escutar o próprio nome, a partir de si, do lado de dentro, e responder em primeira pessoa: “Samuel, Samuel!” A resposta era: To nessa!
Não há senão uma única palavra que nos comove totalmente, que consegue unificar toda a nossa atenção, mobilizar o centro do ser numa única direção. Essa palavra é o nosso nome. O fato de o texto apresentar Deus chamando Samuel pelo nome é altamente significativo. O fato de ele ter sido chamado três vezes na mesma noite (câmera rápida, lembra?) não significa que o isso se deu às 23 horas, às 2 e às 4 da manhã. Quantos anos tinha Samuel quando escutou pela primeira vez aquela “inexplicável voz”? E quantos anos levou para escutá-la em sua terceira e decisiva versão? 20, 30, 50 anos? Por sorte, o personal trainer Eli não o abandonou em sua desordenada intuição de escutar vozes.
“Samuel, Samuel!”
O texto bíblico não conta o que foi dito a Samuel naquela noite. Caso realmente Deus fale, nenhum texto escrito será capaz de transmitir sua voz e o que ele pretende quando fala a um coração humano. O que sabemos é que desde aquele momento, Samuel não foi mais apenas Samuel. Não foi cuidar de sua vida, não foi comprar e vender, não foi se dedicar de corpo-e-alma a cuidar de si mesmo e de seus negócios. Não que isso seja errado. Ô! Errado, errado, não é. É sempre a ética que traça o caminho.
Mas o fato é que a partir daquele momento, do evento daquele “Samuel, Samuel!”, o menino que cresceu já era outro. A noite passou. E com ela todos os medos e incertezas. Samuel ungiu Saul rei de Israel. E quando Saul pisou na bola e feio, Samuel voltou atrás e ungiu Davi rei de Israel. E morreu antes de ver Davi pisando na bola, e feio, também. Samuel não suportava ver gente ungida pisando na jaca!
Quando morreu, a Escritura Hebraica fez o necrológio mais econômico da História em apenas duas palavras: “Samuel morreu”. Não parece muito para quem foi grande. Talvez também nisso ele fosse grande: economizou discursos desnecessários de despedida, daqueles em que a gente escuta e chora e sai dali e se encontra na padaria... para um chops.
Por que Samuel? Sim. Ia esquecendo. Por que Samuel? Talvez porque ele seja o protótipo de alguém que ouve o que não foi dito e escuta a partir de dentro. Talvez porque ele tenha experimentado uma espécie de integridade única que o fez merecedor de escutar a voz (“Samuel” = ouvir Deus, lembra?). Talvez porque naquela leva de gente que engrossa o álbum de fotos de família chamado Bíblia, ele tenha sido o mais honesto. Abraão vendeu Sara, Jacó traiu Esaú, Moisés era político (!), Saul, um paranóico bravo, e Davi, ah meu Deus!, Davi: prefiro não comentar! Samuel foi honesto até a raiz da árvore. Não há como ouvir voz alguma se não houver honestidade. Esse é o quesito sine qua non do assim chamado fenômeno humano da “vocação”. Sempre entre aspas, ta.
Se eu não consegui expressar direito o que seja “vocação”, talvez consiga mostrar.
Bem no centro do campus da Universidade de Harvard, existe um edifício ostensivamente europeu, estilo século XVII. É um museu da cultura alemã: o Busch-Reisinger Museum. Ele possui uma coleção esplêndida de arte clássica alemã. Mas o diamante da coroa, sem dúvida, é o órgão de tubos mundialmente conhecido. Toda quarta-feira, ao meio dia, há um concerto com entrada franca.
No entanto, o que mais chama a atenção naquilo tudo é a inscrição no portal do prédio, no original alemão, de Schiller: “Es ist der Geist, der sich den Körper baut”. (Tecla SAP) É O ESPÍRITO QUE CONSTRÓI UM CORPO PARA SI. Talvez seja essa a frase que mais de perto toque a essência do fenômeno da “vocação”, esse sentir vozes na ausência de um delírio. Ou pelo menos dentro de um delírio retocado de beleza humanizada.
Talvez seja por isso que Thomas Merton, monge, disse que “Até a idade de quarenta anos, cada um de nós terá a cara que merece”. Porque nossa cara não nos acontece; é construída dia após dia pela nossa história e pelo espírito dentro de nós. A tal da “vocação”, também.
Devo algumas idéias a Dom Bernardo Bonowitz OCSO – um cara muito bom, mas que corre um risco danado de ficar famoso, e aí se perder.
sábado, 28 de janeiro de 2012
ALQUIMIA
Os humanos são as únicas criaturas do mundo para quem existir já é um problema. A gente não se conforma com muita coisa da vida, e a morte é a maior delas. E a inconformidade é, ao mesmo tempo, o nosso grande problema e a nossa maior força. (Durma com um barulho desses!)
Veja o João-de-Barro: não é inconformado, mas não é feliz! Alguém por acaso já recebeu carta ou e-mail desse ilustre cidadão contando da nova casa que construiu ou, melhor, alguém já recebeu convite de casamento do João-de-Barro? Tai um cidadão plenamente conformado. No entanto, o que o João-de-Barro nos faz pensar não é o fato dele ser conformado. Na verdade, ele nem é conformado nem inconformado nem feliz nem infeliz. Ele é apenas João-de-Barro. E é isso que aciona a locomotiva do pensamento: ele ser apenas João-de-Barro!
Nós humanos queremos ser tanto. E, no entanto, somos tudo isso e nada disso e quase sempre ao mesmo tempo: conformados, inconformados, felizes e infelizes. Ou não! Nós humanos somos humanos. Apenas, humanos. Mas isso cansa e de certa forma nos horroriza. A gente não queria ser apenas humano. A gente queria ser mais.
E aí, nesse afã de ser mais, a gente provoca mudanças.
Aconteceram mudanças muito rápidas no panorama mundial nos últimos 50 anos. Há 50 anos, tudo estava no lugar, tão bonito e certo que dava gosto de ver! Até os inimigos mundiais eram claros: capitalismo de um lado, comunismo do outro. EUA X Rússia. Havia em quem jogar todas as bombas e todo ódio. O inimigo (sempre precisamos de um) era de uma obviedade maçante.
Hoje, aquele mundo confiável implodiu. As pessoas se sentem inseguras sem as certezas de antes, sema s crenças de antes e sem os inimigos de antes, pra ter onde botar a culpa de tudo. O cardápio do mundo em que vivemos exige adaptação constante, e temos muito maior dificuldade em nos adaptar a uma nova realidade todo dia. Novos padrões trazem novas exigências. Veja as novelas: são os novos padrões globais de família, honestidade, sexualidade, relações humanas. Há também os padrões que não são globais. Mas esses nem contam.
Enquanto grandes mudanças foram acontecendo do lado de fora, ainda maiores mudanças vão acontecendo do lado de dentro. Da gente, claro. Era muito mais fácil viver na infância adocicada, sem os perigos da vida adulta. Mas você teve de crescer e crescer é complicado e dá trabalho. Para crescer, você teve de fazer escolhas e renúncias. Numa palavra, tivemos de desejar. E desejar implica e subentende correr riscos. “Será que vai dar certo?”
A pergunta que vale 10 milhões de Euros (porque dólar já não vale muita coisa!) é essa: Era isso mesmo que você queria da vida? Aquilo que você quer, você pode? Aquilo que você pode, você tem coragem? Dia desses um sujeito me confidenciou: “Eu já havia me encontrado naquilo que queria... Mas não tive coragem de ir adiante, e mudar minha vida!”
Quem perde a coragem de ir atrás do desejo, se deprime. O gatilho dessa depressão é o recuo diante do desejo. Essa situação poderia ser comparada à depressão do animal do zoológico. O tigre anda pra lá e pra cá, pra lá e pra cá... Até que se deita e não faz mais nada. Bem que os tratadores tentam ao máximo transformar a jaula em habitat natural. Mas jaula alguma é habitat natural! O animal se deprime, não come, derruba o pelo, acaba morrendo. Melhor, acaba se deixando morrer.
Não somos animais de zoológico. Mas a cada dia fica mais difícil saber o que queremos. “To com vontade de comer alguma coisa, mas não sei o que é.” A insatisfação invade, empurra, congela, exige, afronta, amedronta... Muitas vezes, deprime. Tanto é possível ficar deprimido quando o sujeito não tem o que quer, quando ele alcança mais do que quer. Sabe por quê? Porque nunca é o que ele queria. Já se declamava na escola Dona Maria Carneiro, o famoso “Grupinho”: “Felicidade é a árvore de dourados pomos, que sempre pomos onde não estamos e sempre estamos onde não a pomos.” Vê lá se a gente entendia qualquer coisa desse amplo espectro da existência humana naqueles idos dos passados 9 anos! Mas declamava! E ficou. Pra eu me lembrar hoje. Valeu, Elisinha!
A nossa é a primeira sociedade da história a tornar as pessoas infelizes, simplesmente, por não serem felizes. Vivemos a época da “felicidade compulsória”: Tudo começa na prateleira do supermercado e termina na lata de lixo. (Acho que já falei isso, mas adoro essa frase!) O fato surpreendente é que as pessoas pagam caro por uma satisfação que não tem. Adições, drogas, medicamentos, diversão, consumo... A vida ficou cara. E sem graça. Somos infelizes pelo simples fato de não sermos felizes. “Onde estiver o seu tesouro, aí estará o seu coração.” (Alguém procure a citação, por favor, e obrigado.)
O gatilho dessa depressão é o recuo diante do desejo. Mas como assim? As pessoas não andam justamente realizando o seu desejo? Cada um, hoje, não tem justamente a oportunidade de fazer o que bem entende? Sim. E não. Porque a pergunta continua insistindo: Você já sabe o que quer? E você já sabe o que não quer? Fazer o que bem entende significa entender o que foi declarado ”bem entender”. Mas, realmente, entende?
O recuo diante do desejo não é o recuo de realizar o desejo, mas o recuo de reconhecer o desejo. Esse é o grande mal estar contemporâneo. Que haja pessoas fazendo o que querem à hora em que querem não significa que elas saibam o que estão fazendo a ponto de poderem reconhecer como sua a realização daquele desejo. Que, pensando bem, sequer é desejo. É apenas ímpeto, impulso cego, fazer por fazer, gozar a qualquer preço. Os nossos avos queriam, mas não tinham. Os netos deles tem... mas não querem. Bela troca!
Se você é o maior responsável pelo que deu certo e pelo que deu errado na sua vida, só você pode mudar. A primeira coisa a fazer é não terceirizar a vida. Diga: Sou eu! É comigo! Esse é o começo de todas as mudanças. Diga: Eu quero! Sou eu que quero! Esse é o começo das transformações.
Essa é a alquimia possível. Mudar ferro-velho em ouro... humm! Não sei! Mas mudar você em você mesmo, e ainda melhor, e ainda mais dono de si, pronto a ir apenas aonde você se levar, parece ser uma alquimia exigente. Mas é inteligente. É real. É ouro.
Veja o João-de-Barro: não é inconformado, mas não é feliz! Alguém por acaso já recebeu carta ou e-mail desse ilustre cidadão contando da nova casa que construiu ou, melhor, alguém já recebeu convite de casamento do João-de-Barro? Tai um cidadão plenamente conformado. No entanto, o que o João-de-Barro nos faz pensar não é o fato dele ser conformado. Na verdade, ele nem é conformado nem inconformado nem feliz nem infeliz. Ele é apenas João-de-Barro. E é isso que aciona a locomotiva do pensamento: ele ser apenas João-de-Barro!
Nós humanos queremos ser tanto. E, no entanto, somos tudo isso e nada disso e quase sempre ao mesmo tempo: conformados, inconformados, felizes e infelizes. Ou não! Nós humanos somos humanos. Apenas, humanos. Mas isso cansa e de certa forma nos horroriza. A gente não queria ser apenas humano. A gente queria ser mais.
E aí, nesse afã de ser mais, a gente provoca mudanças.
Aconteceram mudanças muito rápidas no panorama mundial nos últimos 50 anos. Há 50 anos, tudo estava no lugar, tão bonito e certo que dava gosto de ver! Até os inimigos mundiais eram claros: capitalismo de um lado, comunismo do outro. EUA X Rússia. Havia em quem jogar todas as bombas e todo ódio. O inimigo (sempre precisamos de um) era de uma obviedade maçante.
Hoje, aquele mundo confiável implodiu. As pessoas se sentem inseguras sem as certezas de antes, sema s crenças de antes e sem os inimigos de antes, pra ter onde botar a culpa de tudo. O cardápio do mundo em que vivemos exige adaptação constante, e temos muito maior dificuldade em nos adaptar a uma nova realidade todo dia. Novos padrões trazem novas exigências. Veja as novelas: são os novos padrões globais de família, honestidade, sexualidade, relações humanas. Há também os padrões que não são globais. Mas esses nem contam.
Enquanto grandes mudanças foram acontecendo do lado de fora, ainda maiores mudanças vão acontecendo do lado de dentro. Da gente, claro. Era muito mais fácil viver na infância adocicada, sem os perigos da vida adulta. Mas você teve de crescer e crescer é complicado e dá trabalho. Para crescer, você teve de fazer escolhas e renúncias. Numa palavra, tivemos de desejar. E desejar implica e subentende correr riscos. “Será que vai dar certo?”
A pergunta que vale 10 milhões de Euros (porque dólar já não vale muita coisa!) é essa: Era isso mesmo que você queria da vida? Aquilo que você quer, você pode? Aquilo que você pode, você tem coragem? Dia desses um sujeito me confidenciou: “Eu já havia me encontrado naquilo que queria... Mas não tive coragem de ir adiante, e mudar minha vida!”
Quem perde a coragem de ir atrás do desejo, se deprime. O gatilho dessa depressão é o recuo diante do desejo. Essa situação poderia ser comparada à depressão do animal do zoológico. O tigre anda pra lá e pra cá, pra lá e pra cá... Até que se deita e não faz mais nada. Bem que os tratadores tentam ao máximo transformar a jaula em habitat natural. Mas jaula alguma é habitat natural! O animal se deprime, não come, derruba o pelo, acaba morrendo. Melhor, acaba se deixando morrer.
Não somos animais de zoológico. Mas a cada dia fica mais difícil saber o que queremos. “To com vontade de comer alguma coisa, mas não sei o que é.” A insatisfação invade, empurra, congela, exige, afronta, amedronta... Muitas vezes, deprime. Tanto é possível ficar deprimido quando o sujeito não tem o que quer, quando ele alcança mais do que quer. Sabe por quê? Porque nunca é o que ele queria. Já se declamava na escola Dona Maria Carneiro, o famoso “Grupinho”: “Felicidade é a árvore de dourados pomos, que sempre pomos onde não estamos e sempre estamos onde não a pomos.” Vê lá se a gente entendia qualquer coisa desse amplo espectro da existência humana naqueles idos dos passados 9 anos! Mas declamava! E ficou. Pra eu me lembrar hoje. Valeu, Elisinha!
A nossa é a primeira sociedade da história a tornar as pessoas infelizes, simplesmente, por não serem felizes. Vivemos a época da “felicidade compulsória”: Tudo começa na prateleira do supermercado e termina na lata de lixo. (Acho que já falei isso, mas adoro essa frase!) O fato surpreendente é que as pessoas pagam caro por uma satisfação que não tem. Adições, drogas, medicamentos, diversão, consumo... A vida ficou cara. E sem graça. Somos infelizes pelo simples fato de não sermos felizes. “Onde estiver o seu tesouro, aí estará o seu coração.” (Alguém procure a citação, por favor, e obrigado.)
O gatilho dessa depressão é o recuo diante do desejo. Mas como assim? As pessoas não andam justamente realizando o seu desejo? Cada um, hoje, não tem justamente a oportunidade de fazer o que bem entende? Sim. E não. Porque a pergunta continua insistindo: Você já sabe o que quer? E você já sabe o que não quer? Fazer o que bem entende significa entender o que foi declarado ”bem entender”. Mas, realmente, entende?
O recuo diante do desejo não é o recuo de realizar o desejo, mas o recuo de reconhecer o desejo. Esse é o grande mal estar contemporâneo. Que haja pessoas fazendo o que querem à hora em que querem não significa que elas saibam o que estão fazendo a ponto de poderem reconhecer como sua a realização daquele desejo. Que, pensando bem, sequer é desejo. É apenas ímpeto, impulso cego, fazer por fazer, gozar a qualquer preço. Os nossos avos queriam, mas não tinham. Os netos deles tem... mas não querem. Bela troca!
Se você é o maior responsável pelo que deu certo e pelo que deu errado na sua vida, só você pode mudar. A primeira coisa a fazer é não terceirizar a vida. Diga: Sou eu! É comigo! Esse é o começo de todas as mudanças. Diga: Eu quero! Sou eu que quero! Esse é o começo das transformações.
Essa é a alquimia possível. Mudar ferro-velho em ouro... humm! Não sei! Mas mudar você em você mesmo, e ainda melhor, e ainda mais dono de si, pronto a ir apenas aonde você se levar, parece ser uma alquimia exigente. Mas é inteligente. É real. É ouro.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
KYRIE
Senhor Deus, tende piedade de mim
pois sou o pecado.
Confesso que sou humano, da terra, do solo.
No entanto, destinado a voar e a velejar com os ventos.
Confesso o pecado da idolatria: levo-me em consideração demais.
Ao meu “eu” chamo “Monarca”,
inclino-me ao altar do meu desejo,
aborreço-me com o desejo dos outros.
Confesso que não danço.
A dança cósmica é muito perigosa.
E a dança pessoal é muito reveladora.
Confesso que não rio com abandono.
Meu frágil “eu” permite apenas sorrisos apertados.
Confesso minha vaidade, meu orgulho exposto.
Minha dignidade desdenha da liberdade dos simples.
Confesso meu medo, minha angústia, minha docilidade, e o pior, minha inveja.
Meu medo é pecado: ele mascara minha ausência de fé.
Minha angústia é traição: ela revela minha falta de esperança.
Minha docilidade é deferência: ela expõe meu medo de ser livre.
Minha inveja é ácida: ela corrói o que ainda resta da caridade com que fui amado.
Confesso minha respeitabilidade.
Ponho minha imagem acima da espontaneidade e da liberdade do espírito.
Senhor Deus, tende piedade de mim,
pois sou o pecado.
Senhor Deus, tende piedade de mim,
pois sou a graça.
Em vossa graça eu nasço outra vez,
transformado, renovado, sadio.
Embora eu mal conheça a profundidade do meu pecado,
ele é tocado e abraçado,
é aliviado pelo óleo do perdão, que cura,
pelo bálsamo da misericórdia, que restaura.
Minha escuridão, vós superastes.
Minha culpa, vós desfizestes.
Minha angústia, vós acalmastes.
Senhor Deus, tende piedade de mim.
Confesso que sou o pecado. Confesso que sou a graça.
E em meu pecado, e em vossa graça, confesso que sois Deus.
E em pecado e em graça, doente ou são,
permaneço vosso amigo amado.
pois sou o pecado.
Confesso que sou humano, da terra, do solo.
No entanto, destinado a voar e a velejar com os ventos.
Confesso o pecado da idolatria: levo-me em consideração demais.
Ao meu “eu” chamo “Monarca”,
inclino-me ao altar do meu desejo,
aborreço-me com o desejo dos outros.
Confesso que não danço.
A dança cósmica é muito perigosa.
E a dança pessoal é muito reveladora.
Confesso que não rio com abandono.
Meu frágil “eu” permite apenas sorrisos apertados.
Confesso minha vaidade, meu orgulho exposto.
Minha dignidade desdenha da liberdade dos simples.
Confesso meu medo, minha angústia, minha docilidade, e o pior, minha inveja.
Meu medo é pecado: ele mascara minha ausência de fé.
Minha angústia é traição: ela revela minha falta de esperança.
Minha docilidade é deferência: ela expõe meu medo de ser livre.
Minha inveja é ácida: ela corrói o que ainda resta da caridade com que fui amado.
Confesso minha respeitabilidade.
Ponho minha imagem acima da espontaneidade e da liberdade do espírito.
Senhor Deus, tende piedade de mim,
pois sou o pecado.
Senhor Deus, tende piedade de mim,
pois sou a graça.
Em vossa graça eu nasço outra vez,
transformado, renovado, sadio.
Embora eu mal conheça a profundidade do meu pecado,
ele é tocado e abraçado,
é aliviado pelo óleo do perdão, que cura,
pelo bálsamo da misericórdia, que restaura.
Minha escuridão, vós superastes.
Minha culpa, vós desfizestes.
Minha angústia, vós acalmastes.
Senhor Deus, tende piedade de mim.
Confesso que sou o pecado. Confesso que sou a graça.
E em meu pecado, e em vossa graça, confesso que sois Deus.
E em pecado e em graça, doente ou são,
permaneço vosso amigo amado.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
A FASE ANAL
Toda criança, entre 1 ano e ½ e 3 anos (aproximadamente), passa por uma fase que a psicanálise clássica chama de fase anal.
Toda criança, antes desse período, passou pela fase oral. Fase oral é aquele primeiro momento da vida em que a sensibilidade do pequeno ser, toda ela, se concentra na boca, e isso é fundamental para a sobrevivência: ele precisa mamar. Logo, logo, o pequeno cidadão descobre que a boca, além de lhe oferecer os recursos necessários para o sugar do leite materno, fonte de toda vida, também lhe oferece recursos extras (bônus, entendeu?) de saborear o contato íntimo com algo maior do que, simplesmente, leite: o seio materno, fonte de todo bem. Tudo o que buscarmos mais tarde, toda ânsia por encontrar o Shangri-La perdido, para sempre perdido, toda fome “não sei bem do quê”, toda vontade de comer “alguma coisa que eu não sei o que é”, toda ansiedade que me faz morder os dedos, tudo isso e muito mais, tudo, tudo, tudo, praticamente, se ancora lá, naquele momento mítico-mágico, quando ao mamar leite, a gente mamou seio e olhar.
É que só encher a barriga é pouco, muito pouco. Gente humana quer mais.
Quando se erra na dose, quando o apelo daquilo que ficou pra trás se torna irresistivelmente forte, então, certas fixações acabam sendo re-vividas de forma doentia. Fumar, beber demais, drogar-se, consumir em demasia, assaltar geladeira, numa palavra, exceder-se além do permitido pelo próprio excesso, são ancoramentos na fase oral que já deveriam ter sido ultrapassados. A não-resolução traz conseqüências psicopatológicas desagradáveis e desastrosas, cujo inventário posso me dispensar de fazer aqui, nesse momento, por não ser esse o escopo da conversa.
Como iniciei dizendo, a segunda fase que se segue, e que abrange de 1 ano e ½ a 3 anos, é a fase anal. Todo investimento até então depositado na região oral é deslocado para as redondezas do perímetro anal. Já viu né! Nenê gosta um bocado de mexer nos próprios produtos. Se a mãe permitir, ele leva à boca. Afinal de contas, foi ele quem fez. Uma vez tendo errado na dose desta fase, as complicações não são nem piores nem melhores, maiores ou menores, do que na fase oral. São, simplesmente, complicações anais.
As fixações orais trazem complicações orais: comer, beber, ansiar..., basicamente tudo que esteja ligado à questão “por pra dentro”. As fixações anais trazem complicações anais: reter, soltar, prender, não saber lidar..., basicamente tudo que esteja ligado à dificuldade do “por pra fora”.
Há complicadores. Na fase oral, por exemplo, o vômito (bulimia) é a recusa em “por pra dentro”. Na fase anal, a constipação intestinal (prisão-de-ventre) é a recusa em “por pra fora”. O vômito pode ser transformado no contrário: recusa em se alimentar (anorexia). A prisão-de-ventre pode virar diarréia.
Seja como for, as duas primeiras fases da vida são assim: aceitar o mundo como ele é, rejeitar do mundo o que ele não pode ser. Gente, o mundo é bom! Então, põe pra dentro. Gente, esse trem não presta! Então, põe pra fora.O objeto oral, via de regra, vira dejeto anal. E assim caminha a humanidade. Pondo pra dentro e pondo pra fora. Pra dentro, pra fora, pra dentro, pra fora... Simples assim!
Algumas espécies engolem o próprio vômito. Não é o nosso caso. Outras, comem o dejeto. Também não é o nosso caso.
A não ser...
Numa raríssima exceção apresentada em horário nobre e apreciada por milhões. Mas aí, não se trata propriamente da espécie humana. Seria uma espécie de sub-espécie, sub-gente. Entende? Uma raça dentro da espécie que engole vômito e se alimenta dos dejetos dos outros.
Realmente, não sei onde classificar essa nova espécie recém descoberta. Cachorro, eu sei, lambe vômito. Galinha, que eu saiba, come dejeto. E outros tantos espécimes catalogados que não teria condição de elencar.
Mas onde catalogar essa nova espécie? Em certos aspectos, ela se apresenta por demais elegante: freqüenta lugares de fina estampa. Em outros aspectos, ela é, sobretudo, refinada: possui paladares de fino aparato. E, no entanto, contemplem o disparate: ei-la, diariamente, fartando-se do dejeto alheio.
Caso isso seja “gente”, onde dependurar essa nova categoria de “gente”? Ainda não foi possível encontrar uma brecha nosográfica (no catálogo de doenças) onde inserir (ou seria enfiar?) essa nova entidade do candomblé humano.
De verdade? Acho que nós é que somos atrasados. Enquanto procuramos respostas para as pequenas e grandes questões existenciais, enquanto nos consumimos de horror diante dos excessos destrutivos, enquanto perguntamos a Deus se é a poluição que não o deixa ver os desmandos cá de baixo, o comando da sub-gente descobriu que nada disso vale a pena. Se existe algo que importe – vamos lá, gente! – é “espiar”. E pensar que um dia levei uma reprimenda, justamente, por olhar por um buraco de fechadura! O condenável de ontem virou o aconselhável de hoje. O mesmo Heráclito de Éfeso estava certíssimo: tudo flui, panta rei! O bife de ontem é o picadinho de hoje e o croquete de amanhã. E, depois de tudo, claro, o vaso sanitário! A felicidade começa na prateleira de supermercado e termina na lata de lixo. Ou além.
Nós é que estamos atrasados. Ao invés de conhecer, espiar. Quem sabe, numa dessas, atrás de um buraco de fechadura côncava ou de uma tela plana, encontremos o que nenhum livro, nenhuma biblioteca, nenhuma universidade, nenhuma fonte de conhecimento nos possa alcançar? Quem sabe se trocando conhecer por espiar, a gente volte a ser macaco, ou um primo distante dele, de onde viemos, e para onde voltaremos se continuarmos... espiando?
A fase anal é o início de uma intensa corrida epistemofílica da criança. Acho que posso traduzir esse palavrão pelo termo “curiosidade”. Quando a criança aprende a falar, ela preocupa-se em compreender o que se passa nessa terra incógnita, onde ela vive experiências dolorosas de abandono, angústia e solidão. Do cocô pro barro, do barro pra massinha, da massinha para o conhecimento. Tai o extraordinário percurso humano! Fazer o trajeto de volta (massinha-barro-cocô) não parece uma boa alternativa, no entanto, é o que se faz, de novo, a cada memorável início de ano, quando falta conteúdo alimentar e sobra resíduo fecal.
É que a fase anal tem o seu irresistível apelo a voltar ao cocô: nosso primeiro orgulhoso produto, nossa primícia dadivosa para o mundo. Mas, vamos combinar que essa sedução excrementícia faz parte de uma fase ultrapassada, OK! Ficou bem lá atrás, numa época em que a gente não conseguia distinguir bem a cor da papinha da cor do cocô. Naquela época, aliás, nem eram muito diferentes. Hoje já bem sabemos definir cores e sabores. E somos até capazes de não mais mergulhar, sequer a ponta do dedo, na m.
Toda criança, antes desse período, passou pela fase oral. Fase oral é aquele primeiro momento da vida em que a sensibilidade do pequeno ser, toda ela, se concentra na boca, e isso é fundamental para a sobrevivência: ele precisa mamar. Logo, logo, o pequeno cidadão descobre que a boca, além de lhe oferecer os recursos necessários para o sugar do leite materno, fonte de toda vida, também lhe oferece recursos extras (bônus, entendeu?) de saborear o contato íntimo com algo maior do que, simplesmente, leite: o seio materno, fonte de todo bem. Tudo o que buscarmos mais tarde, toda ânsia por encontrar o Shangri-La perdido, para sempre perdido, toda fome “não sei bem do quê”, toda vontade de comer “alguma coisa que eu não sei o que é”, toda ansiedade que me faz morder os dedos, tudo isso e muito mais, tudo, tudo, tudo, praticamente, se ancora lá, naquele momento mítico-mágico, quando ao mamar leite, a gente mamou seio e olhar.
É que só encher a barriga é pouco, muito pouco. Gente humana quer mais.
Quando se erra na dose, quando o apelo daquilo que ficou pra trás se torna irresistivelmente forte, então, certas fixações acabam sendo re-vividas de forma doentia. Fumar, beber demais, drogar-se, consumir em demasia, assaltar geladeira, numa palavra, exceder-se além do permitido pelo próprio excesso, são ancoramentos na fase oral que já deveriam ter sido ultrapassados. A não-resolução traz conseqüências psicopatológicas desagradáveis e desastrosas, cujo inventário posso me dispensar de fazer aqui, nesse momento, por não ser esse o escopo da conversa.
Como iniciei dizendo, a segunda fase que se segue, e que abrange de 1 ano e ½ a 3 anos, é a fase anal. Todo investimento até então depositado na região oral é deslocado para as redondezas do perímetro anal. Já viu né! Nenê gosta um bocado de mexer nos próprios produtos. Se a mãe permitir, ele leva à boca. Afinal de contas, foi ele quem fez. Uma vez tendo errado na dose desta fase, as complicações não são nem piores nem melhores, maiores ou menores, do que na fase oral. São, simplesmente, complicações anais.
As fixações orais trazem complicações orais: comer, beber, ansiar..., basicamente tudo que esteja ligado à questão “por pra dentro”. As fixações anais trazem complicações anais: reter, soltar, prender, não saber lidar..., basicamente tudo que esteja ligado à dificuldade do “por pra fora”.
Há complicadores. Na fase oral, por exemplo, o vômito (bulimia) é a recusa em “por pra dentro”. Na fase anal, a constipação intestinal (prisão-de-ventre) é a recusa em “por pra fora”. O vômito pode ser transformado no contrário: recusa em se alimentar (anorexia). A prisão-de-ventre pode virar diarréia.
Seja como for, as duas primeiras fases da vida são assim: aceitar o mundo como ele é, rejeitar do mundo o que ele não pode ser. Gente, o mundo é bom! Então, põe pra dentro. Gente, esse trem não presta! Então, põe pra fora.O objeto oral, via de regra, vira dejeto anal. E assim caminha a humanidade. Pondo pra dentro e pondo pra fora. Pra dentro, pra fora, pra dentro, pra fora... Simples assim!
Algumas espécies engolem o próprio vômito. Não é o nosso caso. Outras, comem o dejeto. Também não é o nosso caso.
A não ser...
Numa raríssima exceção apresentada em horário nobre e apreciada por milhões. Mas aí, não se trata propriamente da espécie humana. Seria uma espécie de sub-espécie, sub-gente. Entende? Uma raça dentro da espécie que engole vômito e se alimenta dos dejetos dos outros.
Realmente, não sei onde classificar essa nova espécie recém descoberta. Cachorro, eu sei, lambe vômito. Galinha, que eu saiba, come dejeto. E outros tantos espécimes catalogados que não teria condição de elencar.
Mas onde catalogar essa nova espécie? Em certos aspectos, ela se apresenta por demais elegante: freqüenta lugares de fina estampa. Em outros aspectos, ela é, sobretudo, refinada: possui paladares de fino aparato. E, no entanto, contemplem o disparate: ei-la, diariamente, fartando-se do dejeto alheio.
Caso isso seja “gente”, onde dependurar essa nova categoria de “gente”? Ainda não foi possível encontrar uma brecha nosográfica (no catálogo de doenças) onde inserir (ou seria enfiar?) essa nova entidade do candomblé humano.
De verdade? Acho que nós é que somos atrasados. Enquanto procuramos respostas para as pequenas e grandes questões existenciais, enquanto nos consumimos de horror diante dos excessos destrutivos, enquanto perguntamos a Deus se é a poluição que não o deixa ver os desmandos cá de baixo, o comando da sub-gente descobriu que nada disso vale a pena. Se existe algo que importe – vamos lá, gente! – é “espiar”. E pensar que um dia levei uma reprimenda, justamente, por olhar por um buraco de fechadura! O condenável de ontem virou o aconselhável de hoje. O mesmo Heráclito de Éfeso estava certíssimo: tudo flui, panta rei! O bife de ontem é o picadinho de hoje e o croquete de amanhã. E, depois de tudo, claro, o vaso sanitário! A felicidade começa na prateleira de supermercado e termina na lata de lixo. Ou além.
Nós é que estamos atrasados. Ao invés de conhecer, espiar. Quem sabe, numa dessas, atrás de um buraco de fechadura côncava ou de uma tela plana, encontremos o que nenhum livro, nenhuma biblioteca, nenhuma universidade, nenhuma fonte de conhecimento nos possa alcançar? Quem sabe se trocando conhecer por espiar, a gente volte a ser macaco, ou um primo distante dele, de onde viemos, e para onde voltaremos se continuarmos... espiando?
A fase anal é o início de uma intensa corrida epistemofílica da criança. Acho que posso traduzir esse palavrão pelo termo “curiosidade”. Quando a criança aprende a falar, ela preocupa-se em compreender o que se passa nessa terra incógnita, onde ela vive experiências dolorosas de abandono, angústia e solidão. Do cocô pro barro, do barro pra massinha, da massinha para o conhecimento. Tai o extraordinário percurso humano! Fazer o trajeto de volta (massinha-barro-cocô) não parece uma boa alternativa, no entanto, é o que se faz, de novo, a cada memorável início de ano, quando falta conteúdo alimentar e sobra resíduo fecal.
É que a fase anal tem o seu irresistível apelo a voltar ao cocô: nosso primeiro orgulhoso produto, nossa primícia dadivosa para o mundo. Mas, vamos combinar que essa sedução excrementícia faz parte de uma fase ultrapassada, OK! Ficou bem lá atrás, numa época em que a gente não conseguia distinguir bem a cor da papinha da cor do cocô. Naquela época, aliás, nem eram muito diferentes. Hoje já bem sabemos definir cores e sabores. E somos até capazes de não mais mergulhar, sequer a ponta do dedo, na m.
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