quarta-feira, 27 de julho de 2011

COMENTÁRIO ESPICHADO – 4

Quando é que tudo nasce?

O que viestes ver no deserto? (Mt 11,7)


Não deixa de ser, no mínimo, curioso, que durante o reinado de César Augusto, o primeiro dos imperadores romanos, tenha nascido na Judéia o Cristo do cristianismo, Jesus. Em seu nome nasceria uma religião destinada a ser tornar a religião oficial de todo o Império Romano.

Ele apareceu na Galiléia, durante o reinado de Tibério César. Era um profeta que pregava à maneira dos profetas judeus antigos. Teria aproximadamente 35 anos quando fez sua entrada na História. De resto, tudo é sombra. Ignoramos profundamente como vivia antes de começar a pregar. O que temos são as notícias dos evangelhos. Mas daqui a pouco veremos que os evangelhos não são relatos jornalísticos e não dão noticias. Eles já são interpretações de um fato que se perdeu.

Seria preciso reencontrar esse fato. Mas como?

Assim como a personalidade de Gautama Buda foi distorcida e obscurecida pela rígida, gorda e sorridente figura agachada, pelo ídolo dourado do budismo posterior, podemos perceber que a personalidade enérgica de Jesus foi desvirtuada pela arte cristã, na qual uma reverência equivoca impôs a ele um tanto de surrealismo e convencionalismo. Quem era Jesus? Jesus era um pregador miserável (no sentido de pobre-pobre de marré-de-ci), que perambulava pelas terras ressecadas e poeirentas da Judéia, sustentado por doações ocasionais de comida e algum insípido bem estar.

No entanto, olhe por aí, ele é sempre representado como um homem limpo, penteado e apresentável, em vestes, por vezes, de um branco impecável, ereto e imóvel, como se deslizasse pelo ar. Só isso já faz com que ele pareça irreal e pouco convincente. Com essa imagem fica difícil identificar o âmago da história em meio às invenções ornamentais e tolas da devoção ingênua, senão, ignorante. Ta bom, ta bom! Retiro o “ignorante”.

O fato é que se você pensar na História Universal como uma enorme tela de radar, o acontecimento histórico “Jesus de Nazaré” não passa de um bip no canto da tela. O que ampliou esse bip foi o que veio depois.

Quer um exemplo?

Jerusalém tinha 45 mil habitantes. Mas no festival da Páscoa a cidade alcançava a cifra de 250 mil, astronômica para o primeiro século da Era Comum. Algo mais ou menos comparável a...? Aparecida (do Norte) na festa da Santa. É sim. Exatamente os mesmos tamanhos, as mesmas cifras, as mesmas intenções (do religioso ao comercial e vice-versa), exatamente a mesma feiúra. Porque, vem cá (tirando a Santa), ô lugar feio! Jerusalém era um pouco pior. Imagine Aparecida sem rede de esgoto...

Continuando a analogia, se você quiser dar um tiro em alguém (do tipo: ô vem cá, não vou com a sua cara!), não existe data melhor do que 12 do10 às 12 horas. No meio daquele povaréu, daquele espreme-espreme, daquele buzinaço, daquele foguetório, um tirinho não vai chamar a menor atenção. Vai ser só um barulhinho a mais.

Volte pra Jerusalém. Você acha que justo na véspera do grande festival da Páscoa, exatamente na hora em que os cordeiros começavam a ser mortos no Templo, na euforia e no rebuliço daquele vai-e-vem, que fazia Pilatos e tropas invadirem Jerusalém... um sujeito condenado, que saísse carregando a trave da crucifixão por exíguos 600 metros, numa época em que crucifixões eram comuns, você acha que aquilo chamaria alguma atenção do grande público? Nada! A não ser alguns acompanhantes, nem a soldadesca prestou atenção. Foram lá, resmungaram, bateram uns pregos, testemunharam três infelizes se estrebucharem até a morte, e voltaram, execrando o fato de terem de fazer aquilo, justo naquele dia, véspera de festa! Só isso.

O que fez aquilo ali adquirir status de acontecimento mítico capaz de mobilizar parte do Oriente e o Ocidente inteiro, foi o que veio depois. Foi o que fizeram do bip.

Vejamos.

As palavras de Jesus foram sementes que caíram na terra e morreram. Previsão dele, aliás. Semente que não morre, não brota. Daquelas palavras-semente nada sabemos. A exegese bíblica aponta determinadas possíveis palavras que tenham saído da boca dele. Não passa de conjetura. Do texto original, para sempre perdido, só conhecemos o resultado. O resultado visível é que dele nasceram três rebentos, que o tempo e as condições históricas transformaram em três árvores frondosas; 1) o cristianismo dos evangelhos; 2) o cristianismo de Paulo; 3) o cristianismo de Constantino.

Depois disso, e além disso, é só o cacarejar das igrejas e instituições.

Um exemplo? Observe o fenômeno “Lutero”. Ele fez o que fez porque se abraçou à segunda categoria: a do cristianismo de Paulo. Olhe bem de perto e repare que, mesmo Lutero, não pertence a Paulo inteiro. Lutero pertence a um momento bastante específico: o momento em que Paulo escreveu aos Romanos, e só àquele momento. O Paulo que escreveu aos Colossenses encontrava-se em outro momento, era outro Paulo, e desse, só para continuar no exemplo, Lutero quase nada falou. Ficou claro?

Então, guarde isso. Não apareceu na história subseqüente das igrejas cristãs nada de novo além desses três momentos inaugurais. Tudo o que veio depois, lançou raízes foi lá; e se tentou ser fiel ou acrescentar alguma coisa, foi na direção de um daqueles grandes momentos, que o esforço dessa tentativa foi direcionado. O que existe são aqueles três troncos. O resto é só enxerto.

Vejamos esses momentos.

1) O cristianismo que brota dos evangelhos se apresenta em quatro versões distintas de um mesmo original. Repito: são versões e são muito distintas. Não existe “O Evangelho de Jesus Cristo segundo Jesus Cristo”. O que existe são quatro versões canônicas e outras apócrifas, sempre segundo a percepção intuitiva de alguém, seja ele Marcos, Mateus, Lucas, João e outros. Que, a bem da verdade, não são pessoas físicas: não existe um sujeito chamado Mateus, Marcos, Lucas ou João que foi lá e escreveu. As versões que assumiram os nomes deles brotaram do experimento das comunidades cristãs. Foram elas que escreveram o que supostamente ouviram. Quando fizeram isso já estavam repetindo (a seu modo, veja bem) o que tinham ouvido de quem supostamente também teria ouvido de Jesus e legado como herança. (Ficou horrível, eu sei, mas não conseguir deixar melhor.) Imagine o seguinte: João ouviu de Jesus e pensou, foi lá e falou. A comunidade dele ouviu dele e pensou, digeriu o pensamento, foi lá, e escreveu. E daí saiu “O Evangelho de Jesus Cristo segundo João”. Isso quer dizer que, quando abrimos o Evangelho de João, não são as palavras de Jesus que encontramos, mas as palavras de Jesus filtradas por João. E da mesma forma com Mateus, Marcos, Lucas. O evangelho de João não é a biografia de Jesus, é a auto-biografia de João. Resta acreditar nele, ora, pois.

Ta muito fácil, vamos complicar um pouquinho, senão perde a graça.

Observação número 1: Dois desses primeiros herdeiros, Marcos e Lucas, não conheceram Jesus. Lucas, por exemplo, foi discípulo de Paulo, que foi discípulo de Barnabé, portanto, a terceira versão do experimento original. Parece brincadeira de telefone-sem-fio. E, no fim, acaba sendo, porque Lucas não disse as mesmas coisas que Marcos, que não disse as mesmas coisas de Mateus, que está longe de ter dito as mesmas coisas que João. É o conjunto da obra que interessa. Tenho pavor daquelas caixinhas com dizeres bíblicos, em que o sujeito tira um papelzinho aleatório para decifrar a mensagem do dia. É pior que horóscopo. Pior que periquito de realejo.

Observação número 2: Entre as palavras de Jesus e os evangelhos não existe apenas um gap de 40 anos, uma geração pelo menos, mas um fato/fator fundamental. Entre as palavras de Jesus e o que foi feito delas existe um trem que a teologia chama de a “experiência pascal”. Lembra da história da crucificação na véspera da grande festa da Páscoa? Aquilo não passaria de um desastre de avião monomotor se não fossem as notícias, boatos. Um mais um, mais outro, mais outro, foram espalhando... O quê? Não sei. Notícias truncadas. Parece que ele havia “aparecido”. Mas não era ele. Peraí, era ele, sim. Uma boataria se espalhou logo depois do sinistro. A farisaiada chiou e Pilatos até mandou lacrar o túmulo. E isso cresceu mais que massa de pão. Ganhou volume. E aquele desastre da véspera da shabat começou a ser reavaliado a partir de uma experiência inteiramente subjetiva. Só que foi um mais um, mais outro, mais outro... E ta aí. Não é que a coisa pegou? Se eles erraram, todo mundo foi pro brejo também. Se acertaram, todos acertaram, e amém.

Espero ter deixado claro que o uso catequético-litúrgico-apologético-doutrinal que se faz dos textos nada tem a ver com as suas intenções originais. Redundei: isso acontece com qualquer texto-fundador.

O autor do livro “Deus, um delírio” afirma que Javé, o Deus judaico, era um delinqüente psicótico, com um estranho fetiche ligado às regras menstruais e ao cheiro de carne assada. Caramba! Não é assim. Esse Javé a que ele se refere não é o Javé de-si-pra-si, mas o quê foi possível alcançar dele, por alguém ou alguns, num determinado momento da história do povo judeu. Essa imagem é auto-biográfica: ela fala mais de quem a criou, que propriamente do que foi criado a partir dela.

E tem outra. Não existe um Javé. São vários. A cada momento, há uma evolução, a revelação de uma faceta nova ainda despercebida. O Javé de Abraão é caseiro, o Javé de Moisés é vulcânico. Mesmo que alguém restringisse o foco e dissesse, por exemplo, que existe um Javé dos profetas, estaria equivocado. Cada profeta tem um Javé proporcional a sua expectativa. O Javé majestoso de Isaías é um, o Javé terno de Ezequiel é outro, o Javé decepcionado de Jeremias é outro, o Javé ressentido feito marido-traído de Oseías é outro. Não deixa de ser curioso que a palavra hebraica Elohim (usada para designar Deus) seja um vocábulo plural (Deuses). O povo mais monoteísta da Terra foi o que produziu a gama mais complexa de muitos deuses num só.

E tem outra. O conceito-cerne da aventura de Jesus de Nazaré foi o de Reino de Deus ou Reino dos Céus. E o que é esse Reino de Deus (Basiléia tou Theou) ou Reino dos Céus (Basiléia tou Ouranou)?

Sei lá.

Só sei o que não é. E não é nada do que se faz por aí, em qualquer instância de oligarquia, prestígio ou poder. Dizer que alguém é pretendente a adquirir a cidadania do “Reino de Deus” é uma coisa extremamente anti-conformista. Isso significa que o sujeito não está a fim de compactuar com nenhuma (veja bem, nenhuma!) conivência ou conveniência. (É!) Deu pra ver que o produto que se vende por aí nas boas lojas do ramo é made in Paraguay.

O conceito de Reino de Deus fica muito próximo de um conceito do AT: o conceito de Santo. Kadosh é santo, em hebraico. Quando os querubins cobriram o rosto e o corpo com as seis asas (Isaias é quem conta) e gritaram em uníssono: Kadosh, kadosh, kadosh (Santo, santo, santo) eles não estavam dizendo que Deus era, simplesmente, um Santo mais graduado que os outros, do tipo, tem santo soldado, santo capitão, santo coronel, Deus é santo general. Não. Pelo amor Dele, definitivamente, não. Kadosh significa O Outro Absoluto, ou O Absoluto Outro, O Outro do Outro. Kadosh, kadosh, kadosh (Santo, santo, santo) queria dizer: Outro, Completamente Outro, Absolutamente Outro, NADA DO QUE EXISTA POR AQUI, e assim mesmo, tudo em maiúscula; caixa alta, por favor. Kadosh significa O Quê nenhuma experiência é capaz de experimentar, nenhuma representação é suficiente para representar, palavra alguma é capaz de dizer. Isso é kadosh. Visinho disso fica o Kadish: a oração em aramaico que só pode ser recitada na presença de, pelo menos, dez homens judeus adultos, para que fique claro que é a proclamação pública da grandeza de Um Outro.

O cerne da mensagem de Jesus, o Reino de Deus, caminha por essa trilha. O Reino não está, ele é. “O Reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poderá dizer: está aqui ou está ali, porque o Reino de Deus já está no meio de vocês” (Lc 17,20). O Reino não tem hora nem lugar marcados, não reconhece fronteira entre sagrado e profano, não condiz com nenhuma forma de elitismo, hierarquia, plutocracia, que mais? Por que os ricos não entrarão nele (Lc 18,24)? Talvez porque também não sejam analisáveis. Bota essa na conta do Dr. Lacan.

O Deus de Jesus de Nazaré (proclamado Cristo) é... Nem sei o que dizer. Por um lado, situa-se em continuidade com o Javé judaico, o da Primeira Aliança. Por outro, é completamente diferente dele. É Abbá, “Papai”. É isso mesmo, Jesus de Nazaré, que nunca quis ser Deus (essa opção foi de Alexandre e Júlio César!) tratava Deus com a intimidade de Abbá, “Papai”. A Segunda Aliança (a Segunda Tópica judaico-cristã) não desfez nem refez a Primeira. Evoluiu a partir dela. E viva Darwin! Afinal, até Deus evolui. Como dizia papai: água parada junta bicho. E não é que junta mesmo!

RESENHA ESPICHADA – 3

Heteronomia e autonomia

Minha avó interpretava sonhos. “Não presta sonhar com ovo: é morte na família”. Sonhar com cobra verde também não: alguma mulher solteira, da família, ia ficar grávida. (Claro! Como é que ninguém pensou nisso antes?) A bem da verdade, e da minha avó, devo dizer que esse insight onírico não havia nascido com ela. Precisamente, provinha da avó e da outra avó e da outra avó... Para ser tomado, assim, ao pé-da-letra, como verdade infalível, tinha de brotar de fonte mais antiga, muito mais segura, inabalável, fidedigna, que só poderia ser, no caso, a proto-avó.

O ovo e a cobra verde servem de ilustração para aquilo que o nosso autor chama de heteronomia. Heteronomia? É uma esclerose do pensamento que governou a cultura ocidental no passado, até o século XVI, e que ainda governa muitos pensamentos no século XXI. Basicamente, o roteiro do filme é esse: 1) o mundo daqui de baixo depende de outro mundo, lá de cima; 2) o mundão lá de cima é construído nos mesmos moldes do mundinho daqui de baixo. Sei, sei. É de uma incoerência cruel. Mais ou menos como quando as cortes portuguesas foram deslocadas para o Brasil e a matriz se tornou colônia da colônia. (!) Construir o mundo “de cima” pelo projeto do mundo “de baixo” é, pra dizer o mínimo, surreal. Vêm daí as pinturas de Deus barbudo, vestido à moda da época, entronizado, coroado, cercado de cortesãos e servos de uma corte celestial tão rebuliçosa quanto qualquer corte palociana, digo, palaciana, cá e baixo. Desse mundo “de cima” viriam todas as decisões, punições e benesses. Lá é o setor administrativo, aqui, o setor produtivo. (Fico imaginando o tamanho do arquivo desse RH. Daria um dedo só pra fuçar nele.)

É evidente, o tanto de antropomorfismo que rola nessa idéia. Antropomorfismo significa condecorar determinados elementos naturais ou sobrenaturais com semelhanças humanas. Por exemplo, a árvore que fala, dos desenhos animados; os animais que se metem a gente, das fábulas infantis; os atributos divinos, das incipientes teologias do povão: Deus ficou triste comigo, Deus está zangado comigo, Deus vai me castigar. E mais um monte de coisas que, em especial, o catolicismo ocidental criou a respeito do Sobretudo Outro para traduzir em imagens o que a linguagem nunca deu conta, porque não dá. É daí que vem: “subiu ao céu”, “desceu do céu”, “sentado à direita de Deus”, “pra julgar os vivos e os mortos”... Esse modo de falar concreto acerca das realidades últimas (em teologia se diz: escatológicas) supõe uma intervenção direta de Deus na ordem cósmica, como se Deus fosse um gandula de pelada de várzea, sempre apartando briga, buscando a bola no córrego, desempatando o jogo mesmo sem pertencer ao time, essas coisas...

De vez em quando, esse mundo “de cima” até se comunicava com a gente, pra nos dizer o quê, sozinhos, jamais conseguiríamos descobrir. De vez em quando, ele nos concedia parte das inúmeras coisas de que precisávamos e que achávamos que, de novo sozinhos, nunca alcançaríamos. Daí as súplicas, cumprimentos de promessas, sacrifícios, oferendas, tudo para captar o favor dos governantes. Daí a corte celestial contar com santos protetores (lobistas do Céu), gabaritados para alcançar benevolência e, naturalmente, a miudeza que nos falta. Que é, na verdade, o objetivo que interessa à pavimentação do culto. Se não é chuva é sol, se não é emprego é saúde, ou desilusão amorosa ou loteria acumulada. Miudezas! Aos interessados informo que todos os pedidos deverão ser acompanhados de algum presente e que esse presente pode ser em espécie. Afinal de contas, quem tem boca, fala; quem tem dinheiro é que vai a Roma.

Parêntesis. Nada disso é tão venenoso assim! Quem de nós já não se escorou nalgum santinho de estimação que atire a primeira pedra. (Disseram-me que Santo Antonio é rápido, porém, vaidoso. Recebida a graça, espalhe!) Até aí, nenhum problema. O problema é que esse procedimento infantiliza as pessoas. O corolário da heteronomia é deixar (ou fazer?) as pessoas se tornarem totalmente dependentes de uma ordem externa, naturalmente, manipulada apenas por quem detém o “múnus manipulatórius”. Se acontece assim, não adianta, depois, reclamar se essa infantilização é justamente o que não permite às pessoas assumirem o seu papel desejado na ordem pré-estabelecida. Olha o terreno onde a semente é plantada!

Mas ainda não falei da matéria prima essencial dessa usina. São dois acompanhantes, absolutamente inoportunos – a primeira, fumante e o segundo, bêbado – que insistem em sentar-se na mesma poltrona em que a gente viaja: a culpa e o medo. Culpa gera medo, medo gera dívida, e dívida, pagamento. Pára-choque de caminhão estava certo: “Se Deus é o dono da cessionária, Edir Macedo é o pedágio”.

A gente sabe quem tem de pagar. Mas quem é que vai gerenciar a empresa?
Diferente do judaísmo e do islamismo, o cristianismo ensina que há dois mil anos, Jesus de Nazaré revestido de poder e sabedoria divinos, Deus em forma humana, honrou esse infeliz planeta com a sua presença, e voltou ao Céu depois de morte ignominiosa e ressurreição gloriosa, pra retornar no final dos tempos. No lugar dele, foi constituída, no mundo “de baixo”, uma hierarquia vigária que estabelece e mantém o contato com esse mundo “de cima”. É esse o vínculo que essa hierarquia garante conhecer melhor do que o público fiel, e é através dele que ela reivindica a clarividência determinante do que é certo e do que é errado, verdadeiro ou falso, de modo infalível. Essa ponte construída entre o Céu e a Terra autodenomina-se Magistério. Essa é a base e, ao mesmo tempo, o resultado da heteronomia.

Só que essa heteronomia durou até o século XVI e já acabou.

Por que até o século XVI e por que acabou? Fácil! Porque no século XVI o mundo virou de cabeça pra baixo e, com isso, caíram dos bolsos tudo o que mantinha as posições anteriores. Os grandes descobrimentos trouxeram notícias de outros lugares, mundos, modos e gentes que desbancaram a oficialidade doutrinal em vigor até aquele momento. Lutero incendiou a Europa apenas afixando à porta da igreja do castelo de Wittenberg as famosas 95 teses. Claro que não foi por isso que a Europa pegou fogo. As teses haviam sido colocadas lá, apenas (veja bem, apenas), para debate escolar na universidade do castelo. Coisa mais ingênua do mundo! E não teria passado disso e nada teria acontecido se a imprensa, inventada no século anterior, não soprasse aquela fogueira. Um sujeito foi lá, arrancou as teses da porta da igreja e imprimiu para distribuição gratuita nos postos de gasolina e hotéis. Boom! Aquilo alastrou entre o povo feito fogo em plantação de eucalipto. Os príncipes do norte da Europa estavam até à tampa com o papado e com tudo o que haviam perdido por causa dele no desastre das Cruzadas, das quais ainda não se haviam recuperado quatro séculos depois. E também por tudo o que pagavam de impostos tributados, ainda, no auge do Sacro Império Romano Germânico. Lembram-se do Carlos Magno? Então, é aquele ali, mesmo. Dizem que o sujeito não sabia nem escrever, e dividiu o mundo em dois: metade pra ele, metade pro papa, isso é meu, isso é seu...

Tem outra. A partir desse século, a Dona Ciência evoluiu. E ela sacou algo que revolucionou tudo: a ciência descobriu que a natureza segue suas próprias leis, que a regularidade dessas leis pode ser calculada, e que as conseqüências podem ser previstas. Percebe aonde isso ia dar? Com essa caixa de ferramenta, a ciência já era capaz de tomar precauções. Então, o ramo bento, a água benta e o sal bento podiam ser aposentados? Uai, podiam. Ainda podiam servir, é claro, para outros fins: podiam ser fios-terra para captar o divino, isso podiam. Pra outros efeitos já existiam outros meios. Existem. Tentar curar dor de garganta com vela benta continua válido? Sim, sim, sim. Mas aproveita, passa também no médico e na farmácia, melhor antes.

A maior das descobertas do século XVI não foi o Novo Mundo. Foi um mundo novo de idéias. A partir daí, o universo passou a obedecer às suas próprias (autos, em grego) leis (nomos, em grego). Daí, autonomia. Diferente do que vinha vigorando até então, a partir daquele momento, o universo se tornou autônomo. E assim também a vida das pessoas. E assim também o que cada um pudesse escolher e decidir fazer com ela. Cada um estava apto a descobrir e viver “a dor e a delícia de ser o que é”. E viva o menino Caetano!

Até então essa escolha havia sido sempre anteriormente decidida por quem detinha o poder de escolher. Se você escolhesse diferentemente seria considerado herege. A propósito, você sabe o que significa heresia? Heresia era a escolha que você fazia do seu modo de pensar, ser e viver, mas que era contrária àquilo que status quo dominante havia escolhido para você pensar, viver e ser. Eles é que sabiam o que era melhor pra você. Se você fizesse as suas escolhas, naturalmente, elas seriam punidas com exílio, tortura e morte.

Agora a pergunta que vale um milhão de dólares! Você sabe de onde vem a palavra heresia? Vem do grego, como quase tudo. Em grego, heresia se diz haeresis. E haeresis significa? Dou-lhe uma... Haeresis significa ESCOLHA. Justamente, escolha. Heresia = haeresis = escolha. (Pausa para o riso.) O verbo escolher, a partir de um determinado ponto da história ocidental se tornou altamente perigoso: escolhesse pra ver! Mais ou menos como na prateleira de Mac Donald, todas as escolhas já haviam sido feitas por você. A liberdade que lhe restava era só a de pedir pelo número.

Vem cá! A possibilidade de escolha também é perigosa. Né! Pra todo mundo, é perigosa. Para o indivíduo, existe o perigo de ter de tornar-se sujeito de sua própria vida, saber o que quer e cuidar de si mesmo, por própria conta e risco. Para as instituições existe o perigo de perder o apoio da heteronomia, supremo bastião onde elas concentravam e de onde mantinham o poder da hegemonia.

Porém, já era tarde, não havia mais jeito! Do ponto de vista cultural, o século XVI deu à luz a música tonal, sobretudo, com Bach, e isso deslocou o foco do universo religioso e, consequentemente, social. A Igreja católica havia exaltado o ideal de impessoalidade musical e condenava as obras que deixavam de se aproximar dele. O compositor católico compunha apenas obras onde a música fosse serva da liturgia. Ao contrário, o compositor protestante podia exprimir-se com maior liberdade e, nisso, a música tomou outro caminho: a música deu a mão à expressão do desejo. O público entendeu, aprovou, aplaudiu. E o músico não se preocupou mais com a aceitação das autoridades. Coisa de nada, né! Foi só um pequeno desvio, mas a estrada mudou de lugar.

Do ponto de vista político-social, o século XVII baniu o demonismo das mentes pensantes (claro!) e tomou em mãos as rédeas da civilização. O século XVIII suprimiu a tortura como método processual. Em seguida, vieram os ideais da Revolução Francesa e a primeira declaração dos direitos humanos. Depois, a abolição da escravidão. Por fim, a penetração irrefreável do ideal da democracia, chamado na época de liberalismo, na mesma época, aliás, frontalmente combatido pela hierarquia institucional católica. E voilá! Havia nascido a modernidade. E depois a pós-modernidade, como sua autocrítica.

Deus ainda existia? Decerto. Nunca trombei com ele na esquina, por isso não posso afirmar categoricamente. O máximo que posso dizer é que, caso não exista, existe o desejo que exista. Mas se esse desejo existe, nele mesmo vem embutido um outro desejo que não pode ser desprezado: que o objeto do desejo exista de outra forma, com outras representações, e não mais submetido a quem tire proveito desse desejo de existência, cobrando pedágio, indevidamente.

A partir desse ponto, estamos prontos para acompanhar o autor em sua proposta de retificar, gentilmente, as representações (apenas as representações) que foram tomadas de maneira literal e, por essa mesma razão, acabaram avalizando o oposto daquilo a que se haviam se proposto desde os inícios de sua intervenção. Parece que temos muito a revisar. E se essa revisão for feita com coragem e gentileza, quem sabe, às apropriações indébitas do mistério da fé sucederá um novo modo de pensar aquilo que, para muita gente, tem sustentado a vida. Nunca diga para um sujeito que, toda noite, coloca um pires de leite sobre o muro, e que recolhe o pires vazio no outro dia, feliz da vida porque Deus aceitara a sua oferta, que não foi Deus, mas o gato do visinho que aceitou a sua oferta. Pobre homem, vai ficar sem seu Deus! Pobre Deus, vai ficar sem seu homem! Pobre gato, vai ficar sem seu leite!

Mexer no que as pessoas crêem é nevrálgico. Deslizar suas representações é sumamente necessário. As coisas nunca são o que foram feitas parecerem. As formulações tradicionais são expressões de culturas que pensavam em termos pré-científicos e heterônomos. Essas formulações foram válidas apenas no interior daquelas culturas. Não são mais e nem precisam ser. Não têm validez absoluta, não são eternas, não são imutáveis. O homem moderno que ainda quer crer não rejeita essas formulações como errôneas. Apenas sabe que elas articulam a mesma experiência de fé e de encontro com Deus, porém, partindo de outro axioma, de um outro jeito de pensar, que não é o dele. O Catecismo vigente, formatado nos moldes da Igreja da Contrarreforma, foi bom para o século XVI e, lá mesmo, já estava defasado. Se ele servir para o homem moderno encontrar Deus, então, ótimo! Se não servir, tornou-se uma ferramenta obsoleta. Ou imprópria, como tentar abrir porta com chave-de-roda. É chave. É boa. Pra roda.

A minha avó morreu acreditando que sonhar com ovo e cobra verde tinha o significado concreto de alerta para desastres vitais. Acontece que a minha avó estudou, como ela própria repetiu a vida inteira, só 8 meses do primeiro ano, porque ela era caçula, e órfã de pai, e os irmãos mais velhos achavam que “mulher não precisava estudar”. Mas ela nunca se conformou com isso, como também nunca se conformou com nada que restringisse sua faculdade de pensar, e nunca deixou meu avô mandar na vida dela, e morreu depois dele. Devo a ela certo dom de inconformidade que me acompanha a vida inteira. Porque as coisas nunca são o que foram feitas parecerem.

Uma moça fina, educada na mais alta sociedade sorocabana, me fez ver que essa arenga toda, que eu levei páginas pra escrever, Drummond havia condensado numa frase só, com a genialidade com que só os gênios sabem resumir. “As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”. Bom esse menino, né!

RESENHA COMENTADA – 2

De onde vieram essas idéias?

A melhor definição de signo é a de que signo é aquilo está no lugar de algo para alguém. Veja: se você está com sede, a simples menção da latinha de refrigerante não mata a sede e não tem sentido nenhum, se mencionada só pra você. Passa, no entanto, a ter todo sentido, se houver alguém na jogada. “Você teria uma latinha de refrigerante aí?” Para falar algo é preciso que haja alguém, depois de você e antes do algo.

Os grupos e as culturas sempre expressaram, coletivamente, o que pensavam, imaginavam, temiam ou julgavam valioso. Pra isso é que foram criadas a música, escultura, pintura, construções, vestimentas. Mas, não há dúvida, a forma privilegiada dos grupos expressarem aquilo que pensavam e sentiam foi a fala. A fala esteve presente (minto, está presente), em toda expressão de um grupo humano. Sim, apenas nos grupos humanos. Os animais emitem sons convencionais, mas isso não significa que eles falem. Os animais, por exemplo, não mentem, não contam piadas, não dizem uma coisa com duplo-sentido, não comemoram datas festivas, não sopram velinha de bolo nem enfeitam as ruas quando o time ganha. Os animais são o que são, só isso, e acabou. Pra eles, o mundo é tudo e é mudo.

Para nós, não. O mundo não é tudo nem é mudo. Não é tudo, porque a gente sempre inventa uma necessidade a mais. (Dono de loja sabe disso!) E não é mudo, porque nós colocamos palavras nele. (Ou você nunca conversou com o seu cachorrinho? Tem quem converse com planta!) É daí que surge toda clareza e toda confusão. A fala humana é um emaranhado de comunicações trançadas onde nada é só o que parece ser. Na fala, os valores emocionais nadam como peixes, conotações e segundos sentidos voam como pássaros e a gente só se entende (sabe Deus como!) por acaso ou pelo acordo tácito (em boca fechada não entra mosca!) de ignorar tudo o que saia do campo consensual. Como se diz no mundo jurídico: o que não está nos autos não existe no mundo. É assim mesmo que fazemos. Se não está ali, eu não quero ver; se eu não quero ver, não está ali. Melhor: o que eu não quero ver, não existe. Nem que seja um pouquinho só, todos vivemos no Castelo de Caras. De mentirinha.

Eu estudei lógica. E já naquela época achava aquilo uma bobagem. Essa história de lógica formal serve apenas para mostrar como não se dá o nosso pensamento. Ele é tudo, menos lógico. Gostaríamos que fosse, apostamos nisso e gastamos uma energia federal pra conseguir que ele seja lógico. – “Seja objetivo”, é a exigência. – Mas isso é impossível. Se a feijoada não cair direito, se alguém esbarrar na unha encravada ou se o gerente do banco telefonar um pouco mais sério, (cabrum!) evapora-se toda pretensão de lógica e objetividade. Não que lógica e objetividade não existam. Decerto, até existem. Mas, o que acontece é que a fala (humana) diz sempre mais e sempre menos do que pretende dizer. Aí, a lógica emperra e derrapa. Né!

Até aqui, tudo tranqüilo? Que bom! Porque a partir daqui, as coisas começam a não ficar tranqüilas.

Falar sem se fazer entender

Ao longo dos séculos, o grupo cultural cristão ocidental (ou seja, os cristãos do lado de cá) construiu sua própria linguagem: leis, confissões, textos, rituais, imagens, mosteiros, igrejas... Através das figuras e das cores, os cristãos deram forma àquilo que não cabia nas palavras: esperança, expectativa, imaginação, medo, alegria, dúvida. Uma imagem fala mais do que mil palavras. Certo? Hãhã. Errado. Uma imagem só fala quando existem as tais mil palavras escorando atrás dela, dando suporte, nas quais ela consegue ser apreendida e se expressar. Veja: quando a gente se esquece de algo, não é a imagem, mas da palavra (como se chama aquele algo) que a gente esquece. “Como é que fala mesmo?...” Quando a gente não encontra a palavra exata, a gente põe outra no lugar, mas sempre fica faltando ou sobrando um pedaço, como um triângulo guardado dentro de um quadrado. Euclides da Cunha dizia que não existem sinônimos: cada palavra serve só naquele lugar e, naquele lugar, outra palavra não cabe.

Mas aí, aconteceu algo assombroso com o grupo cristão ocidental. (Vamos combinar que sempre que eu falar de cristianismo será do modelo ocidental, certo? O modelo oriental faz parte de outro planeta.) Algo assombroso, eu dizia, porque aquela linguagem, que durante mil anos todos entendiam, transformou-se numa língua estranha, estrangeira, morta, incompreensível, a não ser para aqueles que fossem formatados nela.

Eu me lembro do meu avô rezando terço durante a missa, sem a menor pretensão de entender patavina daquilo que o padre resmungava de costas viradas para ele. Ouvi até dizer que havia um padre que cantava “Chiquita Bacana” durante a missa. Ôps! A missa dele, a que ele estava celebrando! Paciência, uai. Quem mandou aquele povo levar 20 séculos para se dar conta de coisas básicas como o que chamei à atenção, no início da prosa: que signo é aquilo que está no lugar de algo para alguém. Quando eu falo, a coisa não está ali, mas está, porque vai ficar, porque eu falei. Falar do que não está, numa língua em que ninguém esteja, é surreal, quase louco.

O mundo foi mudando e vai continuar mudando. Quem não mudar junto, vai cair da carroceria. E é curioso como já nos inícios eles mudaram. Veja só.
Jesus de Nazaré foi um operário da construção civil (Mateus emprega a palavra tekton para dizer que ele trabalhava no serviço braçal pesado). Quando passo perto de um canteiro de obras, penso: Se ele estivesse, seria reconhecido? Aquele Jesus produziu um discurso completamente novo e subversivo acerca da realidade: “Prestem atenção nos lírios do campo, eles não tecem...” (Mt 6,28). Ou seja: Caramba! Pra quê tanta coisa?
Porém, isso foi dito e proclamado, em aramaico do século I da nossa era, para e por um pequeno grupo de gente sem a menor pretensão expansionista, sem a menor pretensão de nada. Aliás, eles eram tão nada, tão ninguém, que jamais (ouçam, jamais), nem no maior delírio coletivo, imaginariam aonde a coisa iria chegar. Jesus mesmo achava que o mundo não passava daquela geração.

Mas passou. E nem bem a primeira geração havia envelhecido, surgiu por ali um sujeito culto, com pretensões que ninguém havia se dado conta ainda. Saulo de Tarso – Paulo, para os mais íntimos – veio com umas idéias para aquele pessoal daquele movimento primitivo, que nem Jesus, em pessoa, havia concebido. Bateu de frente com as autoridades constituídas de Jerusalém, Pedro e Tiago do lado cristão e a fariseuzada do lado judaico, e caiu na estrada. Paulo era um sujeito esquisito; o quesito esquisitice só perdia para o quesito cabeçudice. Ele quis, foi e fez. Expandiu o movimento. Nada de ficar por aí olhando lírios e pardais. “Vamos fazer disso daqui uma empresa, gente!” E a coisa apegou. Mas aí ele precisou de outra língua, outra linguagem e outros conceitos: passou a falar, pensar e escrever em grego. E mudou tudo.

Os gregos tinham idéias mais amplas de um humanismo secular e nos legaram noções como democracia, igualdade, liberdade pessoal, razão científica, liberdade intelectual, abertura de pensamento e o que hoje chamamos de “multiculturalismo”. A noção grega da vida é urbana, sofisticada, investigativa, com espaço garantido para a dúvida e o debate. Numa palavra, aberta.

Já o modo hebraico de ver o mundo é outro. Quando digo “hebraico”, não me refiro especificamente aos princípios do judaísmo. Há muitos judeus contemporâneos que são gregos, enquanto a maioria dos cristãos fundamentalistas é profundamente hebraica. “Hebraico”, no uso que faço da palavra, é um jeito menos aberto de ver o mundo, onde as referências são o tribalismo, a fé, a obediência e o respeito. O jeito hebraico se baseia no clã: patriarcal, autoritário, moralista, ritualista e instintivamente desconfiado de estranhos. O mundo é um joguete entre o bem e o mal, com Deus sempre firmemente do lado do bem, que é, claro, o “nosso” lado. Desse lado, as ações humanas são certas ou erradas, não há área cinzenta. O coletivo é mais importante do que o individual, a moralidade é mais importante do que a satisfação e qualquer promessa ou voto é inviolável. A noção de vida hebraica é fechada.

Paulo, a quem Deus escolhera antes dele nascer (Gl 1,15), era romano, grego e judeu, não necessariamente nessa ordem. Observe que foi nessas línguas que Pilatos escreveu a tabuinha de condenação. Paulo era cosmopolita. Foi isso que permitiu a ele criar e formatar os princípios fundamentais do cristianismo, e transformar o cristianismo de seita judaica em religião universal. Mas não foi só isso. Foi, sobretudo, o fato de ele não ter feito parte do círculo íntimo de Jesus. Ele não conheceu Jesus, nunca conversou pessoalmente com Jesus, não guardou do fundador “emérito” nenhuma lembrança. Não precisa fazer muito esforço pra imaginar os primeiros discípulos recordando as conversas íntimas da última ceia: “Você se lembra que naquela noite Jesus me pediu para passar o sal?” Dá pra imaginar Paulo pensando nisso, assim? Não. Por uma única razão: ele estava fora do grupo. Judas saiu. Paulo não entrou. Slavoj Zizek diz que, dessa forma, Paulo também traiu Jesus, não se preocupando com suas particularidades, reduzindo-o brutalmente ao essencial, sem mostrar a menor ternura pela sua sabedoria, pelos seus milagres, palavras, ou por aquilo que ele fez. O ethos de Paulo, organizador e determinador, é antagônico ao ethos de Jesus. Em linguagem lacaniana, o Simbólico é a morte do Real. Nesse sentido, Paulo “suprimiu” Jesus para, no lugar, fazer surgir o Cristo.

Olhem para Paulo, leiam Paulo, mas com atenção. Cadê as parábolas (maravilhosas) de Jesus, onde foram parar os lírios do campo e os pardais, e o bom pastor, e as dracmas perdidas? Ara! Tudo isso era coisa de judeu que falava aramaico num canto perdido do mundo. Paulo mudou tudo e mudou tanto que nem Pedro entendeu mais. Vão lá ler, que está lá. A confusão foi inevitável. Em vez de um anúncio, o resultado foi uma deformação e um engano, num texto que ficou quase irreconhecível. Traduttore, traditore, não é! Todo tradutor é um traidor.

Mas, peraí. Não estou dizendo nem que Paulo confundiu nem que deformou o conteúdo da mensagem. A mensagem foi confundida e deformada pelo simples motivo de ter caído em outro mundo. (Plante uma semente de milho num lugar sem chuva pra ver o que nasce.) Mudou porque mudou, porque o mundo era outro, porque a situação havia mudado, porque Paulo não era Jesus, e porque Jesus nunca quis ser o que Paulo foi. Apesar de certos autores de uma certa literatura de beira de rua insistirem que Jesus foi “o maior líder do mundo”, “o maior professor que o mundo já teve”, ou bobagens similares, o que ele mesmo nunca quis foi ser o maior seja lá no que fosse. Já Paulo, não; ele bem que gostava de um holofotezinho. Não é à-toa que ele seja tanto soli-citado por quem também goste da mesma exposição faroleira.

Pois é, a linguagem mudou e com ela a mensagem também mudou.
E continuou mudando tanto, que hoje está praticamente irreconhecível. É que os intérpretes... ah, meu Deus! Imagine um oratório de Handel interpretado pelo coro da Abadia de Westminster: supremo! Imagine o mesmo oratório interpretado por um coro de fundo de quintal: dá até pra reconhecer que é Handel, mas...

Se o anúncio não chega nem afeta as pessoas pode ser porque as representações usadas pela Igreja em sua pregação e em sua imagem do mundo e de Deus acabem numa interpretação meia-boca de fundo de quintal ou continuem num tempo, digamos, medieval, que foi quando a Igreja se inventou. Enquanto isso, a sociedade ocidental se renova a cada instante, aperfeiçoa seus métodos e se distancia das representações daquela época à velocidade da luz. Quem pensa e sente como se estivesse na Idade Média fala também assim. E essa linguagem se tornou um “idioma estrangeiro” para quem pensa e se sente vivendo aqui, hoje, agora. O latim foi abolido naquele dia em que os altares foram virados de frente para o povo. Mas, apenas o latinório medieval foi abolido. O resto, em boa parte, continua lá.

Quando eu deixei o ministério, meu irmão me avisou que eu me instalara num lugar incômodo: eu havia deixado de ser o primeiro dos últimos para ser o último dos primeiros. Confesso que foi difícil sair da frente da sala de aula para sentar-me na última carteira. Mas, hoje, eu percebo o quanto o lugar professoral impede a visão das coisas e como, da última carteira, se enxerga tudo muito mais e melhor. Obrigado, maninho querido, por me ter alertado. Garanto-lhe que me sinto muito mais confortável, aqui, agora.

RESENHA COMENTADA – 1

Outro Cristianismo é Possível – Roger Lenaers

Abertura
O padre Roger Lenaers é um jesuíta belga, nascido em 1925, especializado em línguas antigas, com mais de 30 publicações. Ele escreveu “Outro Cristianismo é Possível” (*), depois dos 80 anos e a liberdade que só a experiência da vida e a proximidade da morte concedem.

Algumas pessoas a quem eu indiquei acharam o livro de difícil leitura. E me pediram que eu fizesse um grupo de estudos, à moda antiga, para acompanhá-las no empreendimento de ler e entender autor e livro. Eu pensei, pensei... e vi que não tenho mais coragem. Já passei do peso e da idade de fazer essas coisas. Mas não poderia, não conseguiria deixar meus amigos na mão. Se eu tenho algo que posso dar, tenho de dar. Tudo o que não é dado é perdido.

Então, para “remediar”, resolvi fazer essa resenha comentada. Sei que não é a mesma coisa. Mas é melhor que nada. Tomara que o livro se torne claro e as idéias ali contidas possam iluminar. Afinal, tudo o que queremos é o mesmo que Goethe quis no último momento de vida: “Mais luz!”
Eu morri de rir com a advertência do autor no início do livro: “Não leia esse livro caso você não tenha nenhum problema com a Igreja Católica Romana, com sua maneira de pensar e falar, com seu código de conduta, com sua doutrina e sua forma de aparecer em público, com o modo como ela se faz visível e audível para dentro e para fora. Leia-o somente se acredita que as coisas não podem continuar como estão na Igreja Católica, e se gostaria de saber como deveriam continuar.”

Por incrível que pareça, por mais incoerente e desnecessário que possa ser, queremos pertencer. Que absurdo! Em pleno século XXI! Pois é. Mas estamos o tempo todo confrontados com a Igreja atual, uma Igreja que cada vez mais se apresenta com uma aparência medieval que já foi superada. Ou que, pelo menos, deveria ter sido. V. não acha?

Em 1965 (quase 50 anos atrás) com o encerramento do Concílio Vaticano II, uma nova era havia começado. Eu me lembro perfeitamente do primeiro domingo da quaresma daquele ano (eu tinha sete), quando o altar da igreja matriz foi virado e o padre celebrou pela primeira vez de frente para o povo e na mesma língua que o povo falava e, inclusive, ele, o padre, também. Havia um entusiasmo com as mudanças, como se todos estivessem plantando num terreno selvagem. Nasceu muito cogumelo venenoso, eu sei.

Mas nascia. Nascia tudo, mas nascia. Aí, transformaram o terreno num jardim. E, depois, impermeabilizaram o jardim. “Aqui só nasce o quê os donos do jardim quiserem plantar”, disseram os donos do jardim. E aí o jardim perdeu toda graça. E a partir dos anos 80, retrocedeu-se em todo avanço.

Cautela, prudência ou covardia? A História vai dizer. A História é cruel, anote aí.

Quem conheceu a riqueza de formas da religião de antes não consegue não ter uma postura ambivalente com relação a tudo o que tudo virou, num misto de amor e desprezo. E tem os “novos católicos” – meu Deus! – a gente não sabe direito o que é isso e no que vai dar. Seja como for, pelo motivo que for, conhecer nunca é demais. “Pense o que se quiser em certos meios, vocês não terão razão em acreditar que os autores sagrados não sejam uma boa leitura. Quanto a mim, só encontrei recompensas em nela mergulhar...” (Lacan, Seminário 7 – A ética da psicanálise).

Mas por que a Igreja Católica Romana? Por que não outra? E por que não nenhuma? A resposta a seguir só vale para os que cresceram nela. A resposta é: porque crescemos nela. Tautologia ou não, é porque crescemos nela, mesmo. Porque formamos a nossa identidade dentro dela, como acontece às famílias. A gente briga com a família e não vai mais comer a macarronada do domingo na casa da mãe, mas não troca de família, nem consegue dizer que não tem nenhuma.

Esse é o paradoxo e a aporia desse livro. E, afinal, desse momento. Querer pertencer e ao mesmo tempo não conseguir.

Tem jeito? Tomara.

* Outro Cristianismo é Possível, Roger Lenaers, Paulus, SP, 2010.

NORUEGA

Pôxa, tem sempre de ter um "demônio"?

“O advogado do terrorista norueguês, Geir Lippestad, defende que seu cliente, Anders Behring Breivik, é insano e que provavelmente realizou os ataques como um ato da sua loucura. Além disso, Lippestad afirma que Breivik teria tomado drogas antes de entrar no acampamento juvenil para que ele se sentisse “forte, eficiente e alerta”. O advogado ainda não sabe se o seu cliente vai pedir para entrar com uma alegação de insanidade que ajude a minimizar os danos do seus crimes” (fonte Google BR).

Pois é. Dessa vez não foi negro nem muçulmano nem judeu nem asiático nem africano nem latino nem cigano nem detestavelmente pobre nem nenhuma das consideradas escórias da humanidade contra as quais Hitler e os Comensais da Morte (ando assistindo muito Harry Potter) bem gostariam de patrocinar uma faxina higiênica. Dessa vez foi um branco, louro, de olhos azuis, cristão, cidadão do próprio país onde descarregou sua fúria, nascido no centro do poder. Pois é, e agora?

Anders Behring Breivik é um fundamentalista cristão ligado à extrema-direita e à maçonaria, neo-conservador e defensor do Estado de Israel. Mas, é claro, logo, logo tem a tese da insanidade e do uso de drogas e medicamentos. É sempre o quadrado DDDD: se não é Deus ou o Demônio, é a Droga ou a Doença. Nunca O Sujeito.

Só que, desta vez, vem cá, é o sujeito. E, ao que tudo indica, ele fez questão de ficar, de não sair pela porta dos fundos do suicídio, pra dizer justamente isso: “Sou eu mesmo, sô!”. Foi o que mais me chamou a atenção nesse episódio: o sujeito ter ficado. Porque sempre há alguém ou alguma coisa em quem depositar a culpa. Mas desta vez (de novo), vem cá, é o sujeito. Mesmo.

Há casos e casos e casos. Essa história é longa!

Sempre que uma pessoa cai numa depressão de tirar o couro, isola-se completamente da família, perde toda ligação com o mundo, mingua a olhos vistos diante de familiares atônitos, aparece um exame de hipotireoidismo para o conforto familiar. Não é ele. Não fomos nós. Ufa! É a tireóide!

Sempre que um adolescente desanda a limpar as gavetas dos pais de tudo quanto de valor possa ser transformado em drogas, surge no horizonte do desespero alguma luz de lampião para tranqüilizar a família de sua possível participação – muito mais, omissão – no destino da pobre alma imberbe. Dessa vez, é o traficante!

Sempre que antigamente uma criança ficava doente ou alguém desatava a fazer coisas que, decerto, não faria habitualmente, podia estar certo: era mau olhado ou, então, o demônio. Aliás, esse último ta na moda, de novo.

Sempre que um político é pego com a boca-na-botija, um empresário sonega imposto, um juiz federal desvia verbas, um famoso qualquer é fotografado saindo de uma boate gay em companhia de travestis, o papa discursa bobagens, pode esperar, tem sempre um antidepressivo, um estresse sufocante, uma perda momentânea de consciência ou, no último caso, a cúria romana que arquiteta maldades contra sua santidade. É assim. Sempre assim.

Pôxa, tem de ter sempre um "demônio"? Cadê o sujeito? Cadê aquele que executa e sofre a ação do verbo? Onde foi que se escondeu esse “sujeitinho” chamado O Sujeito?

Pode ser o hipotireoidismo? Pode. Pode ser o traficante? Opa! Pode ser o mau olhado e o demônio? A gosto! Pode ser o antidepressivo? Pode. Pode ser o estresse? Claro! Pode haver uma momentânea perda de consciência? Pode. E a cúria romana? Pode, uai, fazer o quê!

Mas cadê o sujeito?

Escuta. Atrás do volante do carro existe uma pecinha que dirige e também faz bobagens. Atrás da direção da vida existe a mesma pecinha que orienta rumos, toma decisões, implica-se naquilo que pensa, fala, atua, omite, influencia e faz. Essa pecinha é, até que descubra outra, a mais famosa de todo o mundo. Enquanto não se encontrar nada semelhante, ela é a única (única!) no universo inteiro capaz de anunciar antecipadamente o que irá fazer e tomar consciência retrospectivamente daquilo que fez. A única!

Todas aquelas variáveis podem influenciar? É claro, comadre! Nem precisa do hipotireoidismo, traficante, antidepressivo, estresse, mau olhado, demônio ou cúria romana. Basta um desarranjo intestinal: o eloqüente e cataclísmico piriri. Meu irmão! Eu recomendo! Um desses, e você adquire o direito a cometer besteiras e se esconder atrás do vaso. Sanitário. Mas mesmo no maior sufoco piririzal há coisas que, vem cá, ninguém faria. Né! Vai ser preciso um vaso sanitário enorme pra esconder qualquer maldade cometida em nome do piriri. E não vai conseguir.

Acho que ainda vai demorar muito para, nalgum relógio universal, os ponteiros apontarem a hora em que se dirá: Daqui pra frente, nada de botar a culpa nas costas do demônio, OK! Até porque, o infeliz nem existe. Que tal, a gente levantar a mão da próxima vez e apontar pra si mesmo?

Ao senhor Anders Behring Breivik eu não sei o que diria. Você sabe? Talvez, que de toda essa imensa consternação pelo imponderável, a atitude dele, sana ou insana, de não se ter matado, de ter ficado para responder, brote como um alvo copo-de-leite nesse brejo. Quem sabe foi preciso algo assim para que a gente comece a esquecer daquilo que desaprendeu e, da próxima vez, em quaisquer pequenos rotineiros atos, deslizes, pecados e omissões, consiga até dizer: “Fui eu. Perdão, mas fui eu.”

SE EU FOSSE VOCÊ

Se eu fosse você, teria descoberto a chave secreta da felicidade. Você não conseguiu isso porque, sobretudo, o que o impede é a preocupação de ser quem é e não outra pessoa diferente de você. Mas se você me fizesse dono de sua responsabilidade, eu faria com ela tudo o que você e eu, sem nos conhecermos, vimos desejando fazer cada vez que nos sentimos predispostos ao disparate. E é isso precisamente o que nenhum de nós dois se atreve a fazer.

A solução é esta: se eu fosse você, o problema estaria resolvido.

Você se levanta cedo, vai ao banheiro, toma café às pressas, sempre de olho no relógio, submetido ao seu impenitente cativeiro. Você é uma pessoa responsável. Desgraçadamente também a mim e a quase todos os homens acontece o mesmo. Mas se eu fosse você ou, dito de outra forma, se você fosse uma pessoa diferente, dormiria até quando lhe desse vontade, tomaria banho só quando o corpo exigisse e chegaria ao trabalho sempre uma hora antes dos outros começarem a sair.

Eu me preocupo comigo. Se eu fosse você, sua responsabilidade não me importaria nem um pouco. Você não gostaria de ser como aquele sujeito imaginário, em tão invejosos extremos de felicidade, que convida para ir à praia a mulher invisível com que sonhou na noite passada ou não se preocupa que lhe tirarem a escada, porque converteu num fato prático a possibilidade de agarrar-se ao pincel? Eu não posso fazer isso. Mas se eu fosse você, faria. Se caísse, caiu.

Se eu fosse você faria o que você, o tempo todo, tem vontade fazer e não se atreve. Eu, é verdade, não me atrevo. Mas se eu fosse você, me atreveria. Iria para a lua de calção de banho com o guarda-chuva aberto ou, quem sabe, sem um nem outro. Sairia para a rua na mais lamentável vestimenta com que me trouxeram ao mundo, com um chapéu de cow-boy na cabeça, cantando música sertaneja e depenando uma galinha, sem me preocupar com o que dissessem de mim, porque tudo o que se dissesse seria de você, esse é o segredo. Medidas policiais que poderiam ser tomadas contra minha pessoa? Ora, seria contra a sua!

Claro que você é incapaz de semelhante extravagância. Eu também sou. Mas se eu fosse você, o problema estaria resolvido.

O que faz de nós dois indivíduos infelizes é precisamente o fato de sermos realmente quem somos e não outra pessoa diferente. Vira e mexe nos dá vontade de acertar as contas com alguém, mas não nos atrevemos porque sabemos quais seriam as conseqüências. Nem você nem eu podemos fazer tal coisa. Mas se eu fosse você... ah! ia lá e pimba.
O mal é que cada um de nós não pode ser senão quem é. Muito de infelicidade resulta é daí mesmo.

Se você fosse eu, você ia lá e fazia, né! Uai! Então? Ta esperando o quê?

terça-feira, 26 de julho de 2011

CÂNTICO NEGRO - José Régio

“Vem por aqui!” - dizem-me alguns com olhos doces,
estendendo-me os braços, e seguros
de que seria bom que eu os ouvisse
quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(há nos meus olhos ironias e cansaços)
E cruzo os braços, e nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade! Não acompanhar ninguém.
- que eu vivo com o mesmo sem-vontade
com que rasguei o ventre à minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós respondeis,
por que me repetis: ”vem por aqui?”
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
a ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada...

Como, pois, sereis vós
que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre nas vossas veias o sangue velho dos avós,
e vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu só tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
e sinto espuma, e sangue, e cântico nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
mas eu, que nunca principio nem acabo,
nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem, por aqui.”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei pra onde vou,
só sei que não vou por aí!